terça-feira, 6 de agosto de 2013

Contos na Cidade Cão.


Esquemas no hospital.

Capítulo I
A menina violentada

 

Bernadete nunca sonhou com coisas grandes, queria ser enfermeira porque achava bonito o uniforme e desde criança planejou seguir a carreira. Tudo começou quando ela, aos quatro anos de idade, viu um filme onde a personagem trabalhava como chefe de enfermagem em um grande hospital em Nova York e vivia grandes aventuras salvando vidas de pessoas que nunca mais veria na vida. Ela também vivia romances proibidos com colegas de trabalho e sofria muitas crises existenciais que Bernadete não poderia compreender naquela idade, mas tudo aquilo soava para a menina como algo grandioso que fazia daquela enfermeira uma verdadeira heroína. Ela cresceu desejando ser aquela mulher forte que ajudava todo mundo enquanto lidava sozinha com seus próprios problemas. Bernadete nasceu e cresceu no subúrbio de São Paulo e viveu todos os problemas comuns às regiões periféricas da megalópole paulista. Aos 13 anos foi estuprada quando voltava da escola. Passava toda noite pelo beco escuro que beirava um esgoto a céu aberto que ficava no caminho de casa e sempre sentia medo, mas naquele dia foi surpreendida pelo agressor que a jogou pra dentro da água imunda e ali a violentou deixando seu corpo ferido em meio aos dejetos fétidos da população. Passou ali alguns minutos em choque e instintivamente decidiu esperar imóvel até ter certeza de que seu agressor havia partido. Quando não ouviu mais os passos e a respiração ofegante dele levantou-se e foi pra casa sentindo aquele fedor que não a incomodava mais do que o próprio sangue a escorrer pelas pernas. Naquele momento o fato de estar sangrando tanto não assustava a menina tanto quanto pensar em como explicaria o que aconteceu ao chegar em casa. Ela preferiria muito mais não ter que contar nada pra ninguém, sentia vergonha e culpa demais. Porém nada explicaria dentes quebrados, escoriações múltiplas pelo corpo, sangramento intenso e principalmente a sujeira e aquele mau cheiro que tinha consigo. Rogou a todos os santos e fadas que se lembrava para que não encontrasse ninguém em casa quando chegasse, mas não foi assim. Logo que entrou na garagem encontrou seu irmão mais velho que aos gritos e safanões lhe fez perguntas em série com tom de reprovação. Bernadete não conseguiu segurar a pose de durona e chorando desesperadamente contou o que aconteceu. Augusto, seu irmão mais velho era um criminoso, praticava pequenos furtos e até já tinha feito um assalto, mas naquela hora sentiu que havia chegado o momento de dar um novo e decisivo passo no crime, naquela noite ele se tornaria um assassino e teria com certeza um bom motivo pra isso. Dentro do rapaz havia uma sensação agradável soterrada em todo o ódio e revolta que sentia naquele momento, pois poderia fazer sua primeira vítima sem culpa e dali pra frente não teria barreiras para fazer aquilo de novo. A família acolheu a menina e tentou acalmá-la enquanto Augusto aguardava ansioso o momento de saber informações suficientes pra sair em busca do estuprador. A família desacreditada no sistema público se quer procurou a polícia. Ninguém cogitou levá-la ao hospital já que isso a exporia aos comentários e, como eles bem sabiam, implicaria em registros para supostas futuras investigações que eles acreditavam nunca dar em nada. Decidiram tratar da saúde da moça em casa mesmo e se alguma complicação maior aparecesse veriam o que fazer depois. Todos estavam em choque, cheios de ódio e revolta. O pai já era idoso e a mãe uma senhora de meia idade com pouca instrução, nunca houve um relacionamento muito íntimo entre os membros daquela família e naquele momento aquilo saltou aos olhos. Perceberam que não sabiam como se comunicar com a própria filha em um momento daqueles. Depois de algumas informações arrancadas da menina com agressividade Augusto saiu em busca do agressor e naquela noite ouviu-se na vizinhança o urro assustador daquele ser monstruoso enquanto ele era empalado no mesmo local onde agredira a pobre criança horas antes. No dia seguinte os jornais sensacionalistas contaram a história com base nos crimes daquele tipo, alguém encontrado naquela situação só poderia ser um estuprador e foi isso que noticiaram. Falou-se em um justiceiro sem jamais chegarem ao verdadeiro autor do crime e o que aconteceu com Bernadete jamais se tornou público. Dali pra frente muita coisa mudou na vida dela e do irmão, mas de certo modo Augusto se sentia beneficiado pelo ocorrido e às vezes sentia culpa quando pensava no que a irmã havia sofrido. Dentro de si sentia que falhou em protegê-la e tentava anular aquele sentimento de que tinha se aproveitado da situação para dar aquele passo que achava importante na sua vida no crime.

 

Capítulo II
Seguindo em frente

  Ela não tinha tido sua primeira vez e conhecer o sexo de forma tão brutal seria motivo de traumas para sempre, mas Bernadete mirou-se mais uma vez em sua heroína que foi seu exemplo feminino desde sempre e seguiu em frente sem dar vazão aos sentimentos que a invadiam sempre que aquela memória surgia. Ela cresceu e continuou perseguindo seu sonho primeiro, seria uma enfermeira, seria importante na vida de outras pessoas e daria o tratamento que não teve naquela triste ocasião. Ela conseguiu concluir o segundo grau o que era necessário para entrar no curso de enfermagem aos 18 anos e já trabalhava em uma central de telemarketing juntando dinheiro para pagar o curso. Augusto lhe ofereceu ajuda nisso, mas ela não concordava com a maneira como ele conseguia seu dinheiro e resistiu enquanto pôde. Infelizmente chegou o momento em que teve que aceitar a ajuda do irmão e ela tentou convencer a si mesma de que aquilo era por uma boa causa. O rapaz sentia orgulho da irmã e sempre falava pros amigos que teria em breve uma irmã enfermeira pra cuidar dele quando se ferisse em confrontos com a polícia o que ele achava ser motivo de mérito.
        Bernadete se formou e conseguiu seu primeiro emprego como auxiliar de enfermagem em uma clínica particular aos 20 anos, dali pra frente continuou seu projeto de vida, tinha que ser chefe da enfermaria de um grande hospital e já sabia que precisava fazer um curso superior. Ela conseguiu uma bolsa pelo sistema de cotas do governo federal e concluiu o curso como a melhor aluna da turma. Bernadete não perdia tempo com festas, namorados, nada a tirava do foco e assim ela cumpriu cada etapa do seu plano de forma brilhante. Aos 25 anos se tornou a enfermeira chefe que sonhava e até ali nunca tinha vivido para nada além da realização do seu projeto. Não pensava se era feliz ou não, mas sabia que tinha motivos pra lutar e seguia firme em seu propósito. Depois de dois anos no cargo lidando com situações sempre absurdamente dramáticas todos os dias ela já estava sem horizonte e sua vida agora parecia sem um sentido real. Nunca se entregou à paixão, não teve romance em sua vida e sua sexualidade era praticamente nula até então. Ela não se permitia analisar seus desejos e negava com todas as forças o impulso homossexual que lhe era natural. Havia deixado a casa dos pais há alguns anos e vivia dias solitários evitando férias ou dias de folga já que eles lhes traziam aquele vazio existencial. Bernadete não tinha amigos, estava afastada da família e não sentia vontade de estar com ninguém. Mas, isso estava prestes a mudar.

 

Capítulo III
Perdendo a invisibilidade

 Foi no final de um longo plantão que Camila entrou em sua vida, a moça entrou no ambulatório com um ferimento muito suspeito, estava claro que era uma criminosa em fuga, mas recebeu tratamento sem dar maiores detalhes sobre o que havia acontecido. Uma enfermeira auxiliar fazia uma sutura na paciente quando Bernadete entrou em busca de relatórios, ao trocar o primeiro olhar com Camila ela descobriu sentimentos muito fortes que a fizeram querer fugir dali imediatamente, porém a imagem daquela moça e seu olhar brilhante a fizeram encontrar motivos para permanecer ali. Evitava olhar para Camila, mas sempre que não podia resistir percebia que a moça não tirava os olhos dela, aquilo a deixava pouco confortável, mas ela não queria que parasse. Camila foi atendida e recebeu alta, mas precisava estar acompanhada para deixar o hospital e quando indagada sobre o acompanhante ela disse o nome do homem que a trouxe, Augusto. Bernadete lembrou-se do irmão e lamentou o fato de não saber nenhuma notícia dele há anos. Impulsivamente se ofereceu para acompanhar a paciente até o local onde seu acompanhante a aguardava e lá estava ele, era seu irmão. Sentiu um misto de alegria e medo, temia principalmente expor aos colegas de trabalho aquele irmão do qual sentia vergonha. Nunca falava da família, tentava a qualquer custo manter o trabalho totalmente separado da sua vida pessoal o que tinha sido fácil já que não tinha vida social e só frequentava festas de final de ano da equipe em último caso. Nessas ocasiões sempre se manteve isolada o suficiente pra jamais ter que dar nenhum detalhe sobre nada fora do trabalho. Augusto também se assustou, não sabia como reagir já que estava com problemas bem sérios naquele momento, ele também estava ferido, mas preferiu ocultar isso da equipe e não receber atendimento. Os dois se falaram com descrição e ele disfarçadamente lhe entregou um guardanapo com um número de celular. Ao saírem Camila lançou um olhar realmente inquietante para Bernadete que observou por alguns instantes aquele casal que parecia sem nenhum rumo na vida.
        Naquela noite Bernadete saiu do hospital e foi direto pra casa, não passou na padaria como fazia todos os dias, desejava ardentemente estar segura em casa, longe dos olhares que sentia sobre si enquanto andava pela rua. Sentia uma sensação diferente aquela noite, não estava mais invisível como sempre esteve, seu disfarce parecia não funcionar naquele momento e sua angústia aumentava a cada segundo. Na entrada do prédio onde morava seu coração parecia estar pronto para explodir, a chave caiu de suas mãos três vezes até ela conseguir abrir o portão, tremia a ponto de não conseguir controlar os próprios movimentos. Conseguiu entrar no apartamento e foi direto para o banheiro vomitar. Lutou muito para não chorar, já fazia muito tempo que não sentia emoções fortes assim, não permitia isso pra si mesma nem quando perdia um paciente. Ela nunca se deixava levar pelos próprios impulsos, mas naquela noite havia algo muito diferente dentro de si e ela continuava desesperadamente tentando anular aquilo tudo. Chorou, vomitou muito e depois banhou-se preparando-se para dormir na mesma hora de sempre. Não foi possível seguir sua rotina metodicamente como fazia todas as noites. Rolava na cama, o olhar de Camila voltava toda hora à sua mente, a imagem de Augusto, seu semblante desesperado, as pessoas que pareciam apontá-la na rua. Já havia decidido que não ligaria para Augusto e tentou jogar fora aquele papel muitas vezes sem conseguir. Passou horas naquela angústia e de repente viu o dia amanhecer sem conseguir dormir. Era hora de voltar para o hospital e ela foi.
 
Capítulo IV
Uma decisão pode mudar tudo pra sempre
 
Passou o dia perdida em pensamentos que já não conseguia controlar e no final do plantão, sem poder mais evitar, ligou para seu irmão sem saber o que ia dizer. Ficou feliz quando a ligação não foi atendida, parecia que tudo estava resolvido, não era pra ser, pensou, já fiz minha parte, não deu, paciência. Mas, logo o celular tocou, número privado. Quem podia ser? É claro que sabia que era ele, como todo mundo que vive na marginalidade ele tinha seus próprios métodos, não atendia ligações de números desconhecidos e sempre ocultava seu próprio número quando tinha que retornar uma dessas ligações, isso ele só fez naquele dia por já esperar aquela chamada. Ele tinha um plano para sua irmã e não sabia que tinha em Camila o chamariz que precisava para atrair Bernadete, mas seu instinto lhe dizia que realizaria seu propósito com a ajuda de Bernadete. Sabia que seria difícil até mesmo convence-la já que ela sempre deixou bem clara a sua opinião sobre a escolha dele pela vida no crime.
        Se falaram e marcaram um encontro, Augusto era mestre na arte da persuasão, mas foi difícil convencer sua irmã, ela sentia que tinha que ir ao encontro do irmão, não sabia bem porque, já tinha decidido esquecer-se dele pra sempre, mas não podia ignorar aquele estranho impulso empurrar com força e foi.
 

Continua...

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