Esquemas
no hospital.
Capítulo I
A menina violentada
Bernadete
nunca sonhou com coisas grandes, queria ser enfermeira porque achava bonito o
uniforme e desde criança planejou seguir a carreira. Tudo começou quando ela,
aos quatro anos de idade, viu um filme onde a personagem trabalhava como chefe
de enfermagem em um grande hospital em Nova York e vivia grandes aventuras
salvando vidas de pessoas que nunca mais veria na vida. Ela também vivia
romances proibidos com colegas de trabalho e sofria muitas crises existenciais que
Bernadete não poderia compreender naquela idade, mas tudo aquilo soava para a
menina como algo grandioso que fazia daquela enfermeira uma verdadeira heroína.
Ela cresceu desejando ser aquela mulher forte que ajudava todo mundo enquanto lidava
sozinha com seus próprios problemas. Bernadete nasceu e cresceu no subúrbio de
São Paulo e viveu todos os problemas comuns às regiões periféricas da
megalópole paulista. Aos 13 anos foi estuprada quando voltava da escola.
Passava toda noite pelo beco escuro que beirava um esgoto a céu aberto que ficava
no caminho de casa e sempre sentia medo, mas naquele dia foi surpreendida pelo
agressor que a jogou pra dentro da água imunda e ali a violentou deixando seu
corpo ferido em meio aos dejetos fétidos da população. Passou ali alguns
minutos em choque e instintivamente decidiu esperar imóvel até ter certeza de
que seu agressor havia partido. Quando não ouviu mais os passos e a respiração
ofegante dele levantou-se e foi pra casa sentindo aquele fedor que não a
incomodava mais do que o próprio sangue a escorrer pelas pernas. Naquele momento o
fato de estar sangrando tanto não assustava a menina tanto quanto pensar em
como explicaria o que aconteceu ao chegar em casa. Ela preferiria muito mais não
ter que contar nada pra ninguém, sentia vergonha e culpa demais. Porém nada
explicaria dentes quebrados, escoriações múltiplas pelo corpo, sangramento
intenso e principalmente a sujeira e aquele mau cheiro que tinha consigo. Rogou
a todos os santos e fadas que se lembrava para que não encontrasse ninguém em
casa quando chegasse, mas não foi assim. Logo que entrou na garagem encontrou
seu irmão mais velho que aos gritos e safanões lhe fez perguntas em série com
tom de reprovação. Bernadete não conseguiu segurar a pose de durona e chorando
desesperadamente contou o que aconteceu. Augusto, seu irmão mais velho era um
criminoso, praticava pequenos furtos e até já tinha feito um assalto, mas
naquela hora sentiu que havia chegado o momento de dar um novo e decisivo passo
no crime, naquela noite ele se tornaria um assassino e teria com certeza um bom
motivo pra isso. Dentro do rapaz havia uma sensação agradável soterrada em todo
o ódio e revolta que sentia naquele momento, pois poderia fazer sua primeira
vítima sem culpa e dali pra frente não teria barreiras para fazer aquilo de
novo. A família acolheu a menina e tentou acalmá-la enquanto Augusto aguardava
ansioso o momento de saber informações suficientes pra sair em busca do
estuprador. A família desacreditada no sistema público se quer procurou a
polícia. Ninguém cogitou levá-la ao hospital já que isso a exporia aos
comentários e, como eles bem sabiam, implicaria em registros para supostas futuras
investigações que eles acreditavam nunca dar em nada. Decidiram tratar da saúde
da moça em casa mesmo e se alguma complicação maior aparecesse veriam o que fazer
depois. Todos estavam em choque, cheios de ódio e revolta. O pai já era idoso e
a mãe uma senhora de meia idade com pouca instrução, nunca houve um relacionamento
muito íntimo entre os membros daquela família e naquele momento aquilo saltou
aos olhos. Perceberam que não sabiam como se comunicar com a própria filha em
um momento daqueles. Depois de algumas informações arrancadas da menina com
agressividade Augusto saiu em busca do agressor e naquela noite ouviu-se na
vizinhança o urro assustador daquele ser monstruoso enquanto ele era empalado
no mesmo local onde agredira a pobre criança horas antes. No dia seguinte os
jornais sensacionalistas contaram a história com base nos crimes daquele tipo,
alguém encontrado naquela situação só poderia ser um estuprador e foi isso que
noticiaram. Falou-se em um justiceiro sem jamais chegarem ao verdadeiro autor
do crime e o que aconteceu com Bernadete jamais se tornou público. Dali pra
frente muita coisa mudou na vida dela e do irmão, mas de certo modo Augusto se
sentia beneficiado pelo ocorrido e às vezes sentia culpa quando pensava no que
a irmã havia sofrido. Dentro de si sentia que falhou em protegê-la e tentava
anular aquele sentimento de que tinha se aproveitado da situação para dar
aquele passo que achava importante na sua vida no crime.
Capítulo II
Seguindo em frente
Ela não
tinha tido sua primeira vez e conhecer o sexo de forma tão brutal seria motivo de traumas para sempre, mas Bernadete mirou-se mais uma vez em sua
heroína que foi seu exemplo feminino desde sempre e seguiu em frente sem dar vazão
aos sentimentos que a invadiam sempre que aquela memória surgia. Ela cresceu e
continuou perseguindo seu sonho primeiro, seria uma enfermeira, seria importante
na vida de outras pessoas e daria o tratamento que não teve naquela triste ocasião.
Ela conseguiu concluir o segundo grau o que era necessário para entrar no curso
de enfermagem aos 18 anos e já trabalhava em uma central de telemarketing juntando
dinheiro para pagar o curso. Augusto lhe ofereceu ajuda nisso, mas ela não concordava
com a maneira como ele conseguia seu dinheiro e resistiu enquanto pôde. Infelizmente
chegou o momento em que teve que aceitar a ajuda do irmão e ela tentou
convencer a si mesma de que aquilo era por uma boa causa. O rapaz sentia
orgulho da irmã e sempre falava pros amigos que teria em breve uma irmã enfermeira
pra cuidar dele quando se ferisse em confrontos com a polícia o que ele achava
ser motivo de mérito.
Bernadete se formou e conseguiu seu primeiro
emprego como auxiliar de enfermagem em uma clínica particular aos 20 anos, dali
pra frente continuou seu projeto de vida, tinha que ser chefe da enfermaria de
um grande hospital e já sabia que precisava fazer um curso superior. Ela conseguiu
uma bolsa pelo sistema de cotas do governo federal e concluiu o curso como a melhor
aluna da turma. Bernadete não perdia tempo com festas, namorados, nada a tirava
do foco e assim ela cumpriu cada etapa do seu plano de forma brilhante. Aos 25
anos se tornou a enfermeira chefe que sonhava e até ali nunca tinha vivido para
nada além da realização do seu projeto. Não pensava se era feliz ou não, mas
sabia que tinha motivos pra lutar e seguia firme em seu propósito. Depois de
dois anos no cargo lidando com situações sempre absurdamente dramáticas todos
os dias ela já estava sem horizonte e sua vida agora parecia sem um sentido
real. Nunca se entregou à paixão, não teve romance em sua vida e sua
sexualidade era praticamente nula até então. Ela não se permitia analisar seus
desejos e negava com todas as forças o impulso homossexual que lhe era natural.
Havia deixado a casa dos pais há alguns anos e vivia dias solitários evitando
férias ou dias de folga já que eles lhes traziam aquele vazio existencial.
Bernadete não tinha amigos, estava afastada da família e não sentia vontade de
estar com ninguém. Mas, isso estava prestes a mudar.
Capítulo III
Perdendo a invisibilidade
Foi no final de um
longo plantão que Camila entrou em sua vida, a moça entrou no ambulatório com um
ferimento muito suspeito, estava claro que era uma criminosa em fuga, mas
recebeu tratamento sem dar maiores detalhes sobre o que havia acontecido. Uma enfermeira
auxiliar fazia uma sutura na paciente quando Bernadete entrou em busca de relatórios,
ao trocar o primeiro olhar com Camila ela descobriu sentimentos muito fortes que
a fizeram querer fugir dali imediatamente, porém a imagem daquela moça e seu olhar
brilhante a fizeram encontrar motivos para permanecer ali. Evitava olhar para
Camila, mas sempre que não podia resistir percebia que a moça não tirava os
olhos dela, aquilo a deixava pouco confortável, mas ela não queria que parasse.
Camila foi atendida e recebeu alta, mas precisava estar acompanhada para deixar
o hospital e quando indagada sobre o acompanhante ela disse o nome do homem que
a trouxe, Augusto. Bernadete lembrou-se do irmão e lamentou o fato de não saber
nenhuma notícia dele há anos. Impulsivamente se ofereceu para acompanhar a paciente
até o local onde seu acompanhante a aguardava e lá estava ele, era seu irmão. Sentiu
um misto de alegria e medo, temia principalmente expor aos colegas de trabalho aquele
irmão do qual sentia vergonha. Nunca falava da família, tentava a qualquer custo
manter o trabalho totalmente separado da sua vida pessoal o que tinha sido fácil
já que não tinha vida social e só frequentava festas de final de ano da equipe em
último caso. Nessas ocasiões sempre se manteve isolada o suficiente pra jamais
ter que dar nenhum detalhe sobre nada fora do trabalho. Augusto também se
assustou, não sabia como reagir já que estava com problemas bem sérios naquele momento,
ele também estava ferido, mas preferiu ocultar isso da equipe e não receber atendimento.
Os dois se falaram com descrição e ele disfarçadamente lhe entregou um
guardanapo com um número de celular. Ao saírem Camila lançou um olhar realmente
inquietante para Bernadete que observou por alguns instantes aquele casal que parecia
sem nenhum rumo na vida.
Naquela noite Bernadete saiu do hospital
e foi direto pra casa, não passou na padaria como fazia todos os dias, desejava
ardentemente estar segura em casa, longe dos olhares que sentia sobre si enquanto
andava pela rua. Sentia uma sensação diferente aquela noite, não estava mais invisível
como sempre esteve, seu disfarce parecia não funcionar naquele momento e sua
angústia aumentava a cada segundo. Na entrada do prédio onde morava seu coração
parecia estar pronto para explodir, a chave caiu de suas mãos três vezes até
ela conseguir abrir o portão, tremia a ponto de não conseguir controlar os próprios
movimentos. Conseguiu entrar no apartamento e foi direto para o banheiro
vomitar. Lutou muito para não chorar, já fazia muito tempo que não sentia
emoções fortes assim, não permitia isso pra si mesma nem quando perdia um paciente.
Ela nunca se deixava levar pelos próprios impulsos, mas naquela noite havia
algo muito diferente dentro de si e ela continuava desesperadamente tentando
anular aquilo tudo. Chorou, vomitou muito e depois banhou-se preparando-se para
dormir na mesma hora de sempre. Não foi possível seguir sua rotina
metodicamente como fazia todas as noites. Rolava na cama, o olhar de Camila voltava
toda hora à sua mente, a imagem de Augusto, seu semblante desesperado, as pessoas
que pareciam apontá-la na rua. Já havia decidido que não ligaria para Augusto e
tentou jogar fora aquele papel muitas vezes sem conseguir. Passou horas naquela
angústia e de repente viu o dia amanhecer sem conseguir dormir. Era hora de
voltar para o hospital e ela foi.
Capítulo IV
Uma decisão pode mudar tudo pra sempre
Passou o dia perdida em pensamentos que já não
conseguia controlar e no final do plantão, sem poder mais evitar, ligou para
seu irmão sem saber o que ia dizer. Ficou feliz quando a ligação não foi
atendida, parecia que tudo estava resolvido, não era pra ser, pensou, já fiz
minha parte, não deu, paciência. Mas, logo o celular tocou, número privado. Quem
podia ser? É claro que sabia que era ele, como todo mundo que vive na
marginalidade ele tinha seus próprios métodos, não atendia ligações de números desconhecidos
e sempre ocultava seu próprio número quando tinha que retornar uma dessas ligações,
isso ele só fez naquele dia por já esperar aquela chamada. Ele tinha um plano
para sua irmã e não sabia que tinha em Camila o chamariz que precisava para
atrair Bernadete, mas seu instinto lhe dizia que realizaria seu propósito com a
ajuda de Bernadete. Sabia que seria difícil até mesmo convence-la já que ela sempre deixou bem clara a sua opinião
sobre a escolha dele pela vida no crime.
Se falaram e marcaram um encontro,
Augusto era mestre na arte da persuasão, mas foi difícil convencer sua irmã,
ela sentia que tinha que ir ao encontro do irmão, não sabia bem porque, já tinha
decidido esquecer-se dele pra sempre, mas não podia ignorar aquele estranho
impulso empurrar com força e foi.
Continua...
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