Rosa
Chamuscada.
Capítulo
I
A noiva
infiel.
Lia tinha
apenas 18 anos quando se casou, namorava Marcelo havia três anos e as famílias
já estavam bem entrosadas, todos aprovavam a união do casal e a vida seguia
dentro do planejado. O casal de
classe média baixa deu uma festa reunindo os pais e parentes mais próximos para
celebrar o noivado e marcaram a data do casamento para dali três meses,
escolheram o mês de maio para se casar e dariam uma festa a altura de suas
posses, mas com certeza haveria do bom e do melhor já que a família já guardava
reservas para a ocasião que era mesmo iminente no ideal de todos.
Durante a
festa de noivado na casa dos pais da noiva Lia se trancou no quarto e chorou. Logo
sua mãe veio saber o que estava acontecendo e a noiva, não conseguindo mais
esconder aquele segredo que a consumia há algum tempo, confessou em prantos.
- Estou
grávida mãe!
-
Grávida? Mas, filha... Tudo bem, vocês vão se casar logo e o Marcelo dará com
certeza um ótimo pai. Eu não aprovaria você engravidar antes do casamento minha
filha, mas já que é assim eu fico feliz em saber que serei avó.
- Mas,
mãe... O Marcelo não é o pai!
- Como
não é o pai? Minha filha você enlouqueceu?
- Não
mãe, mas já estou quase louca mesmo. Eu não sei o que será de minha vida com o
Marcelo se é que teremos uma vida juntos depois de contar isso para ele!
- Mas,
quem é o pai? Me diga pelo amor de Deus!
- Ele
está morto mãe! Aconteceu há poucos dias, vi no jornal que ele foi morto pela
polícia.
A mãe da
noiva era uma mulher simples e valorizava a honestidade, mas naquele momento
sentiu o ímpeto de proteger a filha e teve uma ideia que achou ser capaz de
salvar sua menina.
- Lia,
olha filha, presta atenção, ninguém precisa saber de nada disso... Filha, pelo
amor de Deus! Olha, você pode se casar com ele e ninguém nunca saberá de nada
já que o pai da criança está morto mesmo. Nós podemos guardar esse segredo para
sempre filha, eu jamais falarei uma palavra sobre isso nem mesmo com seu pai.
-
Impossível mamãe, o Marcelo é negro e o pai do meu filho era branco como o
leite! Estou perdida mamãe, o que vou fazer?
A moça
chorava em desespero quando o noivo entrou no quarto todo feliz.
- Como
estão minha futura esposa e sogrinha do coração?
Lia não
conseguiu se recompor em tempo de esconder seu pranto que não teria como
explicar. Ao ver a noiva chorando o rapaz quis entender o que estava
acontecendo.
- O que é
isso? Por que a minha loura está chorando assim?
A mãe
entrou remediando a situação.
- É a
emoção meu filho, não é todo dia que a gente fica noiva, não é? Ainda mais com
um noivo como você, um menino de ouro! Minha filha está chorando de felicidade,
de emoção.
- Não
chore mais minha loura, vem aqui, seque essas lágrimas e vamos para a sala,
meus pais chegaram e querem te cumprimentar meu amor!
Lia
sentiu seu desespero aumentar pensando na família de Marcelo que a idolatrava e
chorou mais ainda. O rapaz não entedia nada, mas não questionou o motivo dado
pela mãe de Lia, pois queria continuar festejando e a presença dos pais o
deixava ainda mais animado. Ele sentia um profundo orgulho da noiva que era
loura e tinha olhos azuis, para ele aquilo era uma conquista e tanto para um
rapaz negro, mas isso ele não admitia nem para si mesmo e se apegava às outras
qualidades da moça quando falava dela ou a apresentava para amigos e parentes.
Naquele momento ele sentiu que havia algo errado com sua noiva, mas estava
ansioso para levar Lia até seus pais e continuar a festa então consolava sua
amada falando de como seriam felizes juntos, de como seus pais estavam felizes
com o casamento e tudo aquilo só a fazia chorar mais. A mãe pediu alguns
instantes a sós com a filha e prometeu que desceriam logo e que Lia estaria
linda e com um sorriso no rosto e assim aconteceu. Na sala pequena, mas bem
mobiliada e arrumada especialmente para a ocasião, esperavam os pais do noivo
com um brilho no olhar e ao avistá-la começaram a tecer inúmeros elogios a ela.
Todos estavam muito alegres e desejavam felicidade ao casal quando o pai de
Marcelo propôs um brinde em homenagem à noiva com um discurso inflamado sobre
suas muitas qualidades e Lia, sem saber o que dizer, chorou copiosamente outra
vez enquanto abraçava seu futuro sogro tentando fazê-lo parar de dizer aquelas
coisas que ela julgava não merecer. Mas, ele continuava falando.
- Meu
filho não poderia ter escolhido moça melhor para se casar, Lia é ideal para ser
sua esposa meu filho! Tão íntegra, honesta...
E a mãe
do noivo completava com animação.
- Sim,
não podia ser melhor, é uma moça honesta, tão descente, hoje em dia é tão
difícil encontrar uma assim. Meu filho tirou a sorte grande, mas ele merece
porque é um menino muito bom mesmo. Serão muito felizes com certeza e logo
teremos netinhos para a gente paparicar!
Lia
queria sumir dali, cada palavra que diziam trazia seu drama de volta. Ela
passou aquela noite com um turbilhão de emoções querendo explodir dentro de si,
mas conteve-se ao máximo e ninguém percebeu nada de errado.
Os três meses passaram rápido e Lia
escondia sua gravidez sem grandes problemas, mas dentro de si havia tanto
sofrimento e culpa que era impossível seguir como sempre foi. Cada dia que
passava ela ficava mais magra, não conseguia comer, não sorria como antes e
isso começou a ser questionado por todos à sua volta. Ninguém entendia porque a
moça estava triste já que estava prestes a realizar o sonho de se casar com o
homem que amava tanto. Tudo estava correndo dentro do planejado, qual era o
problema afinal? Sua mãe era a única guardiã daquele segredo e somente com ela
Lia podia desabafar. Mas, Cláudia era uma mulher prática e evitava falar sobre
aquilo já que alguém podia escutar e dentro de si ela preferia fingir que nada
daquilo estava acontecendo. Sempre que Lia falava qualquer coisa sobre aquilo ela
logo mudava de assunto e repetia que era assim que deviam fazer, esquecer
aquilo tudo e ter fé que nunca seria necessário contar a verdade.
Capítulo
II
O
casório.
Chegou o mês de maio e a data do
casamento. Casaram-se como manda o figurino. De véu e grinalda a jovem noiva
não se sentia bem, parecia que todos sabiam que ela não tinha aquela pureza que
sua imagem no espelho mostrava. Ao entrar na igreja com todos olhando para ela
enquanto ouvia a Marcha Nupcial ela chorava pensando: Meu Deus, como sou
hipócrita!
Tudo
correu bem durante a cerimônia com exceção do interminável pranto da noiva, mas
todo mundo achou normal ela estar tão emocionada e sua mãe lembrou várias vezes
que aquilo era comum.
- É
normal a noiva se emocionar, eu mesma já chorei muito hoje! No dia que me casei
eu fiquei até pior do que ela está hoje!
Assim
seguia a festa sem ninguém ao menos desconfiar dos reais motivos para o pranto
da noiva. Por alguns momentos, entre fotos que ficariam para sempre e muitos cumprimentos
acalorados de todos os convidados, Lia até conseguiu livrar-se daqueles
pensamentos que a atormentavam constantemente nos últimos três meses e dançou,
sorriu ao lado do seu verdadeiro amor, mas ainda sentia profundo arrependimento
por ter traído sua confiança.
Foram para o novo lar sem uma viajem
lua de mel já que todo o dinheiro foi usado na festa. O apartamento era
simples, um dormitório apenas, mas foi mobiliado com carinho pelo marido
esforçado que fez questão de comprar o melhor que encontrou nas Casas Bahia
dentro de suas posses. Tudo era perfeito, móveis novos, panos de cozinha
impecavelmente alvos, a capa do liquidificador combinando com a do botijão de
gás, um típico lar suburbano da capital paulista. Aquela nova rotina a fez distrair-se
um pouco de sua angústia e ela foi quase feliz por alguns meses, mas chegava o
momento em que ela inevitavelmente teria que contar que estava grávida e ela se
preparou para isso contra sua vontade já que teria que mentir sobre a
paternidade da criança. Ao saber que seria pai, Marcelo vibrou de alegria,
dentro de si desejava que a criança fosse branca como a mãe, mas não admitiria
isso jamais.
- Nossa
minha loura, já? A gente não perde tempo mesmo.
-
Aconteceu antes do casamento Marcelo.
- E você
já sabia e nem me contou nada meu amor?
- Eu não
queria que você se sentisse pressionado a se casar por causa da gravidez.
- Que é
isso minha loura? Você sabe que eu te adoro mais que tudo nesse mundo, eu não
deixaria de me casar contigo por nada meu amor!
Naquela
noite se amaram como nunca, comemoraram e começaram a se preparar para o que
viria de mudança com a chegada do bebê.
Capítulo
III
O rebento
do adultério.
O tempo passou e Lia deu à luz um
lindo menino, mas todos os seus pesadelos se tornaram realidade quando ela
botou os olhos na criança pela primeira vez. Foi como ela tinha visto em seus
sonhos que a atormentaram durante toda a gravidez, a enfermeira trazia com um
sorriso aquele menino que em nada lembrava o suposto pai e até o último segundo
Lia tentava manter a esperança de que ele fosse filho de Marcelo, mas no fundo
sabia que não era. Chorava desesperada, não queria que seu marido visse a
criança, mas isso não poderia ser evitado por muito tempo. Quando Marcelo viu o
bebê sua emoção ofuscou a razão e ele não questionou o fato do menino ser tão
diferente, era branco, tinha olhos claros como os da mãe, em nada lembrava
Marcelo.
Os pais
de Marcelo chegaram com flores para Lia e presentes para o bebê e encontraram Cláudia
e Nestor, os pais de Lia, no berçário onde estava a criança. A tensão tomou
conta de Cláudia que tinha rezado até o último instante para que o menino fosse
mesmo filho de Marcelo. Olhando com carinho para o recém-nascido todos teciam
elogios.
- É lindo
demais, uma criança muito bonita mesmo! Parabéns meu filho! Dizia o pai com os
olhos mareados. Mas, a mãe de Marcelo observou que o garoto não trazia nenhuma
característica física do seu filho.
- É lindo
mesmo, mas não lembra em nada o pai, puxou só a mãe. Mas, é assim mesmo, depois
ele vai ficar mais moreninho como o pai, aposto!
- É assim
mesmo, mas parece que esse menino puxou só a mãe, pelo menos por enquanto não
tem nada do pai. Disse Nestor enquanto sentiu nas costas um beliscão dado por
Cláudia.
- É nada,
vai ser um lindo menino, já pensou moreninho com esse olho verde lindo? Tentava
remediar a avó materna.
- É verde
ou azul? Não dá para ver daqui. Quando a gente pode pegar no colo? Perguntou a
avó paterna.
- Eu não
sei mamãe, vamos para o quarto ver como está a Lia, acho que logo vão levar o
bebê para amamentar e a gente vai poder ver de perto.
Cláudia
tremia por dentro e Nestor percebeu a agitação da mulher, mas ela deu a
desculpa de sempre, a emoção do momento.
Ao
entrarem no quarto Lia sentiu gelar o sangue em suas veias. Com a voz saindo
aos tropeços perguntou com ansiedade.
- Já
conheceram seu netinho?
- Oh,
sim, já! Respondeu a sogra.
Lia
lançou um olhar para sua mãe com a pergunta embutida e essa fez um gesto com
descrição acalmando a filha. Mas, um comentário do pai de Marcelo logo tirou
sua calma outra vez.
- É um
lindo menino, só um pouco branco demais, parece que não puxou nada do nosso
lado viu!
Marcelo
estava tão feliz por ser pai daquele garoto loiro que nem dava importância para
isso, na verdade estava muito feliz por ser daquela maneira e completou com
alegria:
- Ah pai,
mas também olha a cor da mãe dele, minha loura é linda e eu sabia que me daria
um filho tão bonito quanto ela. Agora eu tenho minha loura e meu louro!
Todos
sorriam e faziam carinhos na nova mamãe e ela sentia-se a pior das mortais. Não
acreditava que todos estavam ignorando o fato daquela criança não ter nada do
pai em suas feições. Sua ansiedade aumentou quando a enfermeira trouxe o bebê
novamente para o quarto, mas tudo correu normalmente já que a emoção dos avós
em pegar o netinho no colo pela primeira vez não deixava espaço para
questionamentos e jamais passaria em suas cabeças nenhuma dúvida sobre a índole
de Lia.
Capítulo
IV
Capricho
do destino.
O tempo passou e o menino crescia em
meio aos cuidados e carinhos de todos especialmente de seu suposto pai que
tinha muito orgulho do filho e sempre deixava isso evidente. Dentro de Lia a
culpa diminuía e seu medo constante de ter seu segredo revelado agora pesava
menos em seu coração. Ela levava sua vida de mãe e esposa dedicando o máximo de
seu tempo aos cuidados da casa, do marido e do filho e isso a fazia esquecer
por breves instantes aquela terrível culpa que sentia. Porém quando o menino
estava com sete anos de idade ele foi atropelado enquanto seu pai o ensinava a
andar de bicicleta e ficou seriamente ferido. Marcelo levou o filho ao hospital
em desespero total. Aquele garoto era seu tesouro e ele não se perdoava por não
ter conseguido evitar o acidente. Lucas precisava receber sangue em uma
transfusão, mas não havia seu tipo sanguíneo disponível no hospital e Marcelo
imediatamente foi ao hemocentro para doar sangue na esperança de salvar o
filho, mas seu sangue não era compatível com o da criança. Ele achou estranho,
mas estava muito preocupado para questionar isso e quando Lia e os avós do
garoto chegaram foi possível salvar a vida de Lucas. Logo que o quadro clínico
do menino se estabilizou aquela dúvida voltou à cabeça de Marcelo e ele foi
perguntar ao médico porque não foi possível usar seu sangue no próprio filho. O
médico deu algumas explicações alegando que é possível sim pai e filho terem
tipos sanguíneos diferentes, pois não queria alimentar dúvidas que
aparentemente haviam na cabeça de Marcelo.
- O
importante é que o menino está fora de perigo e logo poderá ir para casa. Disse
o médico encerrando o assunto.
Mas, Marcelo sentia crescer dentro de
si uma dúvida que ele não queria aceitar, preferiria não pensar mais naquilo,
mas constantemente era invadido por uma tristeza quando pensava na
possibilidade de Lucas não ser seu filho. Preferiu pensar que o garoto tinha
sido trocado no hospital o que o deixava realmente desesperado, mas não
admitiria jamais que Lia tivesse sido infiel. Alguns meses se passaram sem que
ele pudesse tirar aquilo de seu pensamento e ele buscou informações sobre como
tirar aquela dúvida. Descobriu que podia ter certeza fazendo um teste de DNA e
depois de muito pensar em como diria isso a sua esposa ele finalmente conversou
com ela e disse que queria fazer o tal teste. Lia sentiu de volta todo aquele
medo e angústia. Desesperou-se com a possibilidade real de ter seu segredo
revelado e agora era muito pior já que Lucas já era capaz de entender tudo isso
e sofreria as consequências dos erros que ela cometera e que nunca foi capaz de
perdoar.
- Como
assim Marcelo? Você está louco? Você acha que o Lucas não é seu filho?
- Eu não
sei mais de nada Lia! Primeiro o menino não tem nada a ver comigo, não lembra
em nada ninguém da minha família, agora o tipo sanguíneo que não bate... E se
ele tiver sido trocado no hospital? Isso acontece, não é?
- Se foi
trocado o que a gente pode fazer Marcelo? Vamos rejeitar nosso filho agora?
Procurar outro garoto e esquecer tudo que vivemos até agora com o nosso Lucas?
É isso que você quer?
- Lia, eu
estou muito confuso, eu não sei mais o que pensar, me desculpe minha loura, eu
não tenho mais sossego desde aquele acidente, isso não sai da minha cabeça!
- Sabe
Marcelo, eu fico muito ofendida com suas suspeitas...
- Não
chora Lia, eu sinto muito meu amor, estou muito confuso, não sei o que pensar,
me perdoa por favor!
Chorando
se abraçaram e decidiram não falar mais sobre aquele assunto já que o menino
poderia desconfiar de algo e isso seria pior ainda. Lia havia vencido uma
batalha na luta para manter seu segredo, mas sentia que nunca estaria livre
daquilo e que algum dia teria que revelar aquela verdade tão inconveniente.
Capítulo
V.
Dúvidas
de um marido traído.
O menino
crescia e cada vez mais ficavam evidentes as diferenças entre ele e seu pai que
sentia aquela angústia crescer dia-a-dia em seu coração. No fundo Marcelo não
queria saber a verdade, mas sua curiosidade aumentava todo dia e ele não
conseguia mais esconder seu sofrimento. Não tinha mais a alegria de antes e sem
querer evitava estar com o filho, foi aos poucos se afastando da esposa e da
criança e evitava ser visto com Lucas temendo os comentários das pessoas sobre
a falta de semelhança entre eles. Estava prestes a aceitar a dura realidade,
aquele garoto não era seu filho! Mas, não podia aceitar que Lia havia sido
infiel e menos ainda que teria sido capaz de mentir sobre algo tão importante.
Ele sempre deixou muito claro que a paternidade era um sonho em sua vida e que
Lia era a mulher que sempre desejou para ser mãe do seu filho. Não, ela não
podia ser tão cruel, não podia ter feito algo tão monstruoso, não a sua Lia,
não. Ele tentava achar outras explicações que tirassem da sua loura qualquer
responsabilidade sobre aquilo tudo, mas já estava prestes a aceitar que aquele
garoto que fora motivo de tanta felicidade não era seu filho. Um dia descobriu
que podia fazer o teste de DNA com uma amostra capilar do garoto e assim
poderia tirar essa dúvida sem ter que trazer isso à tona novamente com Lia.
Cortou uma pequena mecha do cabelo do filho enquanto ele dormia e levou ao
laboratório, mas o valor do exame estava fora de suas possibilidades e ele
sentiu-se incapaz, fraco, pequeno. Sua condição financeira saltou-lhe aos olhos
como algo muito triste e irremediável. Agora sentia-se muito pior, era um
marido traído, um pobre negro com um filho branco e nem ao menos podia tirar
aquela dúvida. Voltou para casa abatido e em meio à tristeza esqueceu a mecha
de cabelo no bolso.
Dias depois Lia fazia suas tarefas do
lar e ao revistar os bolsos de uma das calças do marido antes de pôr para lavar
na máquina encontrou a mecha de cabelo de Lucas. Não entendeu o que aquilo
significava e até pensou que o marido estava sendo infiel e chorou pensando que
teria que aceitar uma traição do marido já que ela mesma havia feito o mesmo e
ainda pior, tinha tido um filho do seu amante e criado como filho do marido.
Sentiu as pernas tremerem e se encostou na parede enquanto chorava. Lucas
aproximou-se querendo saber o que se passava com a mãe e a abraçou tentando
confortá-la. Ao abraçar o menino, ainda com a mecha que encontrara no bolso do
marido na mão, percebeu que era do menino aquele cabelo. Não restava dúvida,
colocou a mecha próxima à cabeleira do filho e em fração de segundos entendeu o
que estava acontecendo.
- Ai meu
Deus, é muito pior do que eu pensei, ele fez o teste!
- Quem
mamãe? Que teste?
Lia
chorava desesperadamente e sem pensar falou o que não queria.
- Oh
Deus, ele não esqueceu essa história, já deve saber da verdade, estou perdida!
- Mamãe,
o que foi que aconteceu?
- Ah, meu
filho, agora seremos só nós dois! Meu Deus, o que será de mim? Meu filho,
perdoe sua mãe, se eu pudesse voltar eu faria tudo diferente!
- Como
assim mãe, o que houve com o papai?
- Talvez
ele não queira mais ficar conosco Lucas!
- Por que
mãe? O que foi que eu fiz?
- Não
filho, não é sua culpa, pelo amor de Deus! Nada disso, não!
- Então o
que foi?
- Ah meu
filho, é muito complicado para explicar agora, eu tenho que falar com seu pai.
- Mas,
por que mãe?
- Meu
filho querido, eu te amo tanto, nunca vou deixar de cuidar de você meu amor,
nunca. Você tem sua mãe meu filho, nada vai te faltar, eu juro! Me abraça meu
filho, eu nunca vou te deixar sozinho, eu prometo!
- Mãe, eu
não vou ficar sozinho, tenho você e o papai, tenho minha avó Cláudia e o vovô
Nestor e tenho meus avós no interior.
- Ai meu
Deus!
Lia
chorava cada vez mais ao pensar em como seus sogros reagiriam, como explicaria
aquilo ao seu pai, como ele reagiria ao descobrir que Cláudia sempre soube de
tudo e nunca contou nada para ele. Tentou se recompor ao perceber que Lucas
estava cada vez mais assustado e curioso, não estava preparada para explicar
nada daquilo para o menino e desconversou tentando convencer o menino que se
tratava de um assunto entre ela e seu marido e nada era culpa do menino. Ele
saiu para brincar na casa de um amiguinho e ela passou a tarde toda chorando
enquanto esperava o marido chegar. No fundo desejava que nunca chegasse a hora,
mas também queria resolver aquele assunto logo. O ideal seria não ter que dar
nenhuma explicação, pensou em se matar, pensou em fugir para longe sem deixar
pistas, mas como faria isso? Teria que levar Lucas consigo, não tinha dinheiro,
não tinha estrutura nenhuma. Tudo que pensava a levava para um beco sem saída.
Capítulo
VI.
A verdade
sempre aparece.
Lia
chorou por horas sem conseguir achar uma saída. Ao chegar em casa Marcelo não
percebeu imediatamente o que se passava com sua esposa já que há muito não
conseguia olhar diretamente para ela, mas Lia estava com os olhos muito
inchados e era evidente que ela não estava bem. Depois de algum tempo ele notou
que algo estava errado e quis saber o que aconteceu.
- O que
houve Lia, você andou chorando?
- Não,
imagina. Porque eu iria chorar?
Nesse
momento Lucas entrou na sala...
- A mamãe
estava chorando sim, chorou muito mesmo e é tudo culpa sua pai!
- Não meu
filho, nada disso, a culpa não é do seu pai.
- Mas,
mãe, você falou que ele ia embora, que ia deixar a gente, você disse isso mãe!
- Eu? Ir
embora? Que história é essa Lia?
- É pai!
Por que você vai embora? Você não gosta mais da gente por que?
- Que é
isso meu filho? Eu não vou embora, jamais deixaria você e sua mãe, vocês são
tudo para mim Lucas! Que história maluca é essa? Lia, me explica o que está
acontecendo aqui!
- Viu
mãe, o papai não vai deixar a gente não, fica calma mãe, para de chorar. Está
vendo mãe, ele está dizendo que não vai abandonar a gente!
- Lia,
pelo amor de Deus me explica o que está acontecendo aqui!
- Lucas
meu filho, deixa eu conversar com seu pai. Eu te disse que não é nada com você
meu amor, a mamãe e o papai tem que conversar tá bom? Depois a gente explica para
você meu filho, não é culpa sua, por favor não pense isso tá?
O menino
saiu contrariado e Marcelo ficava cada vez mais nervoso por não entender nada,
mas tentava não levantar a voz já que via sua esposa em frangalhos. Respirou
fundo e perguntou novamente.
- Lia, o
que aconteceu?
-
Querido, eu achei que você tinha esquecido essa história... Meu Deus, você não
pode deixar isso pra lá Marcelo?
- Do que
você está falando Lia?
Ela puxou
a mecha de cabelo do bolso e ergueu no ar em frente ao rosto do marido.
- Essa
maluquice de teste de DNA Marcelo! Porque você não deixa isso pra lá? O que
você quer com tudo isso? Não entende o que isso pode causar ao nosso filho?
Você não vê o que isso significa para mim? Eu não posso suportar sua dúvida,
sua desconfiança!
- Ah meu
Deus! Lia, por favor meu amor... Olha, isso foi loucura minha, mas fica calma,
eu não fiz o teste, foi desespero meu, sei lá. Além do mais o teste custa muito
caro e eu não poderia mesmo fazer.
- Então
você teria feito se pudesse pagar, não é?
Marcelo
sentou-se no chão, respirou fundo e respondeu:
- É, eu
teria feito sim Lia, não consigo mais viver com uma dúvida que eu sei que eu
mesmo criei para não ter que aceitar a realidade... O Lucas não é meu filho, eu
posso sentir isso, mas não posso aceitar. Só esse exame poderia me dizer a
verdade... Ou então você Lia!
-
Marcelo, eu não posso mais aguentar isso!
Ele
levantou-se e a segurou com força pelos braços. Ela que já chorava em desespero
ficou ainda mais nervosa e assustou-se com a atitude do marido que nunca havia
se quer levantado a voz para ela.
- Então
fala mulher! Me conta a verdade!
Lia
percebeu que dali para a frente não havia mais como esconder seu segredo, era
chegado o momento de revelar a verdade. Encheu-se de coragem, libertou-se dos
punhos do marido e tomou certa distância dele antes de começar a falar.
- Está
bem Marcelo... Ele não é seu filho, essa é a droga da verdade! Eu não sabia o
que fazer, o pai dele morreu antes do nosso casamento, o Lucas não teria um pai
e eu ia te perder para sempre! Eu não sabia o que fazer, você sempre falou que
queria ser pai... Ai meu Deus, o que será de mim? Marcelo, meu amor, por favor
tenta entender, me perdoa por favor, me perdoa meu amor porque eu não consigo
me perdoar... Nunca vou me perdoar meu amor, nunca! Eu ainda tinha esperança de
ele ser seu filho, sei lá, tentei me convencer disso Marcelo... Por favor meu
amor...
Marcelo
não acreditava no que estava ouvindo, parecia que acordaria a qualquer momento
e sairia daquele pesadelo. Sentiu as pernas tremendo e sentou-se no sofá, nada
dizia, não conseguia olhar para Lia e ficou por alguns instantes olhando
fixamente para o chão impecavelmente limpo da sala. Em sua cabeça tudo se
encaixava, todos aqueles anos na dúvida, tudo que acontecera até ali fazia
sentido agora e sua vida soava para ele como uma grande mentira. Sua esposa tão
amada e venerada como uma santa, uma mulher acima de qualquer suspeita, a
mulher dos seus sonhos... Era tudo mentira, ele viveu na ilusão até ali, não era
pai de Lucas, Lia não era a mulher da sua vida, nada mais fazia sentido!
Levantou a cabeça e procurou o olhar da esposa, mas ela estava ali no canto da
sala encolhida no canto da parede, estava frágil, envergonhada, não conseguia
olhar para ele. Marcelo não suportou vê-la daquele jeito e saiu sem dizer nada,
mas bateu a porta com força descarregando um pouco da raiva que sentia.
Capítulo
VII
Depois da
tempestade.
Passaram-se
dias, meses e Marcelo não retornou. Começou a mandar uma pequena quantia para
manter a casa em um envelope sem remetente. Lia manteve segredo enquanto pode
sobre a saída do marido de casa, mas como Marcelo não deu notícias aos pais e
nem amigos e parentes próximos eles começaram a questionar e ela teve que
contar que ele havia saído de casa. Todos queriam saber o por que afinal não
fazia sentido, Marcelo não abandonaria a família assim sem nenhuma razão. Ela
apenas dizia não saber de nada e deixava que as pessoas tirassem suas próprias
conclusões. Logo conseguiu se isolar e assim não tinha mais que dar tantas
explicações. Seguia sem conseguir explicar ao próprio filho o que tinha feito o
pai ir embora e cada dia que passava aumentava a angústia com as perguntas do
menino. Lucas ficou depressivo, não conseguia estudar, ficava tempo demais fora
de casa e Lia preferia assim, mas estava preocupada com o que ele estaria
fazendo, podia estar andando em más companhias, podia se envolver com drogas...
Tudo isso a assustava, mas ter que responder suas perguntas era ainda pior!
Cinco meses se passaram e ela vivia sem nenhuma razão, sucumbia em pensamentos
terríveis, fugia do próprio filho para não ter que olhar em seus olhos e ver a
tristeza que tomava conta do menino. Sabia que estava sendo egoísta, seu filho
precisava dela e na idade dele, agora com quase dez anos, era bem possível que
buscaria refúgio nas drogas. Marcelo não dava nenhum sinal além do dinheiro que
chegava todo mês, mas agora até isso havia acabado. No quinto mês não receberam
o envelope e no sexto também não, Lia desesperou-se. Não se sentia no direito
de cobrar nada de Marcelo, como exigiria pensão alimentícia se Lucas não era
filho dele? Como procurar o marido se não podia olhar em seus olhos? O que
poderia fazer? Buscou ajuda dos pais, a mãe já tinha oferecido ajuda, queria
que ela fosse morar com eles novamente, mas Lia tinha esperanças de que um dia
Marcelo voltaria, confiava em seu amor e rezava para que o tempo fosse capaz de
tirar aquela mágoa do peito do seu amado.
Teve que aceitar que ele não voltaria
e decidiu alugar o apartamento em que morava e mudar-se para a casa dos pais e
o fez de maneira informal já que não era a única proprietária. Mas, mais uma
vez o destino a castigou e quando conseguiu alugar o apartamento já morando com
os pais há dois meses Nestor descobriu estar muito doente e precisando de
tratamento que não podia pagar. Agora Lia tinha que ajudar o pai, pensou em
vender o apartamento, mas teria que encontrar Marcelo para isso. Tudo fizeram
para salvar Nestor, mas não foi possível, ele faleceu seis meses depois de
descobrir o câncer no pâncreas e agora Cláudia e Lia estavam sozinhas com a
missão de manter a casa e controlar Lucas que estava cada vez mais rebelde e
distante. Elas estavam muito abaladas com a sua nova realidade, eram duas mulheres
à moda antiga, sempre viveram para sua família e nenhuma das duas tinha
estrutura emocional nem financeira para viver sem seus maridos. Lucas precisava
cada vez mais de uma figura masculina e elas perderam o controle sobre o
garoto. Tudo parecia perdido e elas sucumbiram deprimidas chorando as próprias
mágoas e sentindo-se incapazes de continuar vivendo.
Por algum tempo mantiveram-se com o
aluguel do apartamento e a aposentadoria que Cláudia herdou do marido, mas logo
ficou difícil e tiveram que cortar despesas o que deixava Lucas sempre mais
revoltado.
Capítulo
VIII
Perdendo
o controle.
Dois anos
se passaram e as duas viviam sem vontade, não tinham motivos para sair da cama
e se contentavam com a condição financeira que tinham agora. Mas, o inquilino
deixou o apartamento e na crise pela qual o país passava foi difícil encontrar
novo morador para o apartamento. Novamente tiveram que cortar gastos e a
situação ficava cada vez mais insustentável. Lucas, agora com quase 12 anos,
resolveu que tinha que fazer alguma coisa já que era o homem da casa e começou
a fazer pequenos furtos para trazer algum dinheiro para casa. A mãe não queria
aceitar a verdade e aceitou a explicação do garoto que dizia ganhar dinheiro
jogando videogame com os colegas. O menino já não frequentava a escola, mas a
mãe absorta em sua depressão nem ficou sabendo disso e quando descobriu o que
se passava com seu filho já era tarde demais.
Lucas foi
detido pela polícia e levado para a FEBEM onde cumpriria medida corretiva por
seis meses. Ficou evidente que Lia era incapaz de cuidar do próprio filho e ela
sofria mais e mais por saber que ele só tinha ela, não tinha pai, os avós
paternos não eram opção e sua mãe estava destruída emocionalmente. No dia em
que viu seu filho entre os jovens marginais ela decidiu que estava na hora de
reagir. Não teve coragem de repreender o filho pelo que ele fizera, sentia que
era tudo culpa sua, sabia que tinha sido displicente e negara ajuda quando o
menino mais precisava, além do mais tudo aquilo era culpa sua, o menino era uma
vítima de sua mentira. Lia se sentia um monstro e Cláudia também não se
perdoava por ter tido a ideia de esconder a verdade sobre a paternidade do
menino e incentiva a filha a seguir com aquela mentira.
Capítulo IX
Uma decisão muito difícil.
Agora
tudo parecia sem solução, Lia estava cada vez mais deprimida e a culpa que
sentia aumentava a cada dia diante do que estava acontecendo com seu filho.
Mas, havia algo ainda mais gritante, a falta de dinheiro. Com sua mãe não podia
contar, Cláudia não conseguia superar a morte do marido e sucumbia cada vez
mais na sua depressão. Passava dias na cama, mal se alimentava e não tinha
nenhuma perspectiva de mudar aquela situação. Lia estava na mesma, não tinha
trabalho, não pensava em nada que pudesse fazer para ganhar dinheiro, pois não
tinha qualificação profissional e nem se sentia capaz de tentar estudar. De
qualquer jeito tinha que fazer alguma coisa e começou a procurar emprego de
qualquer coisa nos jornais. Estava disposta a fazer o que fosse preciso, mas
nada se encaixava, não sabia como seguir daquele ponto.
Foi quando viu um anúncio de uma casa de
massagem em um bairro chique da cidade. São Paulo era uma cidade cheia de casas
como aquela e ela não sabia muito bem o que eram aqueles lugares, mas imaginava
que não teriam uma oportunidade de trabalho decente. Mesmo assim resolveu
tentar já que era o único trabalho que não exigia nenhuma experiência anterior
ou qualquer qualificação para ser admitida. No dia seguinte levantou disposta a
ir até um daqueles endereços, mas ao pensar em como seria o trabalho sentiu-se
enjoada e desencorajada. Como teria que tomar uma decisão urgente, já que não
tinha mais como se manter, ela tomou coragem e começou a se arrumar para sair.
Durante o banho sentia um frio no estômago, sentia enjoo, náusea, estava com
muito medo do que poderia mudar em sua vida se levasse aquele plano adiante.
Claudia percebeu a movimentação da filha
e quis saber por que ela estava se preparando para sair.
- Filha,
você vai sair? Já faz tempo que não te vejo se arrumar.
-Sim
mamãe, eu vou procurar trabalho.
- Mas,
vai fazer o que filha? Você só sabe cuidar de casa.
- Eu
tenho que fazer alguma coisa mãe, assim não dá mais, estamos vivendo a pão e
água. Pelo amor de Deus!
- Vai
trabalhar de doméstica filha?
- Ai
mamãe, nem isso eu posso fazer, todos querem referências dos patrões anteriores
e eu não tenho nada!
- Então o
que você vai fazer?
- Mamãe,
eu nunca guardei segredo de você, você sabe. Mas, isso eu não gostaria de falar
para você.
- Como assim filha? Que história é essa Lia? Eu
quero saber sim, estou velha, mas não estou morta. Pelo menos ainda.
- Ai mãe,
eu queria ter como fazer isso de outro jeito, mas não achei nada além desse
trabalho. Não precisa de experiência e eu posso tentar. Sei lá mãe, eu não sei
mais o que fazer!
- Lia,
você está me assustando. O que você vai fazer?
- Eu não
sei ainda mãe, mas com certeza não é nada bom e você não vai aprovar.
- Fala
logo Lia!
- É uma
casa de massagem mamãe! No anúncio dizia que só precisa ter mais de 18 e menos
de 30 anos e, é claro, boa aparência.
- Ai meu
Deus! Minha filha, isso é casa de prostituição?
- Eu acho
que sim mamãe. Estou com muito medo, mas eu tenho que arrumar algum dinheiro,
assim não dá para continuar!
- Mas,
Lia, você acha que tem coragem de fazer?
- Eu não
sei mãe, mas vou ter que tentar.
- Eu
tenho medo filha!
- Eu
também mamãe, eu também!
Naquele
momento mãe e filha estavam novamente unidas em uma situação desconcertante.
Outra vez seriam cúmplices em uma empreitada totalmente absurda para elas que
eram mulheres de família e jamais imaginaram viver tal situação. Olhando nos
olhos da mãe Lia percebeu que tinha sua benção para tentar aquele emprego e as
duas se abraçaram chorando em desespero. Estavam realmente desamparadas e sem
perspectivas, mas aquela possibilidade de conseguir mudar essa realidade,
apesar de todas as questões morais, era uma luz no fim daquele túnel que, até
ali, parecia não ter saída.
Capitulo X
Indo à luta.
Saindo
pela primeira vez em busca de emprego Lia se sentia bem, mas estava com medo e
vergonha do que estava prestes a se tornar. Era ainda pior pensar que não seria
aceita para o trabalho que achava indigno, mas se conseguisse, não teria volta,
dali para frente seria uma prostituta! Esperando o ônibus para o metrô ela
sentia como se todos soubessem o que estava indo fazer, parecia que todos ali a
estavam julgando e condenando. Imaginava o que eles diriam, como seria a reação
dos vizinhos que, em sua cabeça já a julgavam como uma mulher adúltera e uma
mãe displicente. Já estava tonta e enjoada, prestes a desistir e voltar para
casa quando o ônibus finalmente chegou. Ela hesitou, não queria entrar, mas não
podia fraquejar. Pensou na mãe em casa precisando de sua ajuda, no filho
recluso naquela instituição horrível e em como seria quando ele saísse.
Enquanto as outras pessoas entravam ela desistiu, voltou atrás, desistiu
novamente e quase foi embora quando ouviu o motorista.
- Vai ou
não vai moça?
Entrou
finalmente e pensava que ainda teria algumas chances de desistir daquilo. Ao
chegar ao metrô novamente pensou que aquilo era uma loucura, que não
conseguiria fazer, que não podia fazer, que não seria aceita. Tudo estava
confuso em sua mente e ela sentiu uma angústia terrível outra vez. Já estava se
acostumando com aquela sensação já que ultimamente era constante sentir o
coração apertado diante dos fatos. Culpa, arrependimento, tristeza. Lia estava
vivendo uma situação que sabia que tinha provocado, sentia como se fosse aquele
o seu castigo por ter enganado seu marido, seu filho, sua família. E pensar que
seu pai havia morrido sem jamais falar sobre isso com ela! No fundo ele sabia,
mas nunca teve coragem de perguntar sobre o verdadeiro pai de Lucas. Pelo menos
ele não veria sua filha se tornar uma puta, pensou Lia. Isso a fez tomar
novamente a decisão então ela entrou na estação lotada e pegou o trem até o seu
destino. Durante a viajem ainda pensava em desistir, mas sabia que não o faria,
agora era hora de agir e ela sentia o corpo tremer toda vez que pensava que
realmente faria aquilo.
Chegando ao endereço parecia que não
tinha mais volta, a não ser que não fosse admitida, ela faria aquilo, seria uma
decisão sem volta. Entrou na casa tentando parecer disposta a tudo, mas seus trejeitos
deixavam claro que se tratava de uma mulher frágil e assustada. Logo percebeu
que o lugar não era nada do que ela havia imaginado, a casa era uma verdadeira
mansão, muito bem decorada e iluminada, em nada lembrava um puteiro como ela
havia pensado. Foi atendida por uma bela recepcionista que a tratou muito bem e
lhe ofereceu algo para beber fazendo de tudo para que ela se sentisse à
vontade. Lia foi ficando mais calma e percebeu que talvez aquilo não fosse tão
terrível assim. Foi entrevistada por um homem muito educado e solícito que
apenas quis saber se ela teria disponibilidade de horário e se realmente queria
o trabalho. O tratamento ali não tinha nada a ver com o que ela pensava ser um
ambiente como aquele.
- E então
Lia, você quer tentar? Seja sincera porque eu tenho que poder contar com você
aqui já a partir de amanhã. Se fosse possível ficar hoje mesmo seria ainda
melhor.
Lia
estava decidida, agora era a hora!
- Sim,
claro, eu posso ficar hoje sim, só preciso saber o que fazer, eu nunca fiz nada
assim antes. Você entende, não é?
- Claro,
claro, é normal. Eu vou chamar a Cristal, ela vai te explicar tudo e com
certeza você vai se dar muito bem aqui. Fique tranquila e sinta-se à vontade.
Seja bem vida Lia. É esse o nome que você vai usar?
- É o meu
nome.
- Algumas
meninas preferem usar outro nome, sabe como é.
- Eu não
tinha pensado nisso.
- Fale
com a Cristal, ela vai te ajudar nisso e no que mais você precisar.
- Está
bem. Obrigada.
Cristal era uma mulher alta, morena,
corpo escultural, muito simpática e com um sorriso encantador. Já tinha mais de
30 anos com certeza, mas mantinha seu corpo impecável. Lia pensou que tinha
sido boba achando que não seria aceita, que o lugar teria um ambiente
deprimente e assustador. Não era nada do que havia pensado e ela começava a se
sentir mais tranquila. Cristal lhe explicou com calma e delicadeza o que ela
teria que fazer, do que precisaria comprar de roupas e acessórios e os horários
que teria que cumprir.
- Mas, eu
só vim com essa roupa mesmo. E agora?
Lia
começou a sentir medo de novo e Cristal percebeu sua angústia.
- Não se
preocupe querida, eu te empresto uma roupa para hoje, amanhã a tia Zilda vem
aqui e você compra umas peças para você. Ela tem coisas lindas, muito elegantes
e todo mundo aqui compra com ela.
Lia ficou
desconcertada, não tinha nenhum dinheiro e vendo aquela elegância toda já
imaginava que não poderia pagar. Cristal era escolada, já tinha visto outras
garotas e ela mesma tinha passado por tudo aquilo no começo.
- Fica
tranquila moça, a tia Zilda vende fiado para todas nós, ela é gente boa.
Lia não
podia acreditar que aquilo era verdade, todo aquele acolhimento, um tratamento
que ela jamais pensou que teria em um lugar como aquele. Aliás, o lugar em si
já não era nada do que ela tinha imaginado.
Depois de
explicar como seriam os ganhos na casa Cristal levou Lia até o vestiário e
mostrou algumas peças que Lia podia escolher, eram roupas elegantes e todas
brancas, a casa era rígida com relação a aparência e higiene das garotas e do
local. Lia escolheu uma roupa e, meio sem jeito, vestiu. Cristal tentou
deixa-la mais à vontade.
- Ficou
linda, você tem um corpo ótimo, vai se dar bem aqui. Você pode usar até amanhã,
mas lave antes de me devolver e tome cuidado porque é uma peça delicada. Agora eu
vou te mostrar as salas.
- Salas?
- Sim, é
onde você atende os clientes. Eles te conhecem na sala de apresentação ali
depois da recepção e depois você leva para uma das salas de massagem. Enquanto
espera cliente você pode ficar aqui ou lá fora na piscina, mas tem que estar
sempre pronta para apresentação.
Tudo era
mistério para Lia, ela não entendia metade do que Cristal falava, mas evitava
fazer muitas perguntas para não parecer tão despreparada.
Após
conhecer a casa toda Lia ficou mais tranquila, pois era realmente um lugar
muito agradável e fino, um ambiente muito acolhedor. Parada diante do espelho
via uma mulher diferente de si mesma. Sentiu-se confiante e pensou em como
diria para sua mãe que tinha conseguido. Resolve ligar para casa para avisar
que voltaria tarde.
- Oi mãe.
- E aí
filha, como foi? Está tudo bem? Onde você está Lia?
- Eu
consegui mãe, já estou trabalhando.
- O que?
Como assim?
- É.
Depois eu te explico tudo. Vou ficar até dez da noite, me espera para eu te
contar tudo. Mas, fica tranquila, eu estou bem, é bem melhor do que eu pensei.
- Mas,
filha, pelo amor de Deus! Onde você está? E se acontecer alguma coisa onde eu
vou procurar? Ai meu Deus!
- Calma
mãe. É naquele endereço no Itaim Bibi, está no jornal que deixei na mesa da
cozinha. Mas, não se preocupe, aqui é um lugar muito bonito e elegante, alta
classe mesmo, você tem que ver.
- Mas, e
o trabalho, você conseguiu fazer filha? Como é que foi meu amor, você está bem?
- Calma
mamãe, ainda não fiz nada aqui, tive só a instrução e me mostraram a casa.
-
Instrução? Como assim filha?
- É mãe,
é diferente do que a gente pensou. Quando chegar aí eu te explico. Mas, fica
tranquila que estou bem. Se algo der errado eu te aviso. Eu te amo mãe. Torce
por mim.
- Claro
filha. Boa sorte! Eu não sei o que faria sem você. Você sabe que eu tenho
orgulho de você, da sua coragem nesse momento. Eu estou imprestável aqui e você
está tendo que fazer isso filha. Eu sinto muito meu amor, sinto mesmo! Mas,
ainda bem que você é corajosa.
- O que é
isso mãe? Não fala assim. Tenho que desligar, até mais tarde. Beijo.
-Um beijo
minha filha. E olha Lia...
- O que
foi mãe?
-
Obrigada filha.
Claudia
desligou o telefone e ficou ali parada pensando em tudo que a levou até aquele
momento. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Sua única filha
tendo que se sujeitar daquela forma. O que seu marido pensaria daquilo, como
seria se ele estivesse vivo, mas principalmente sentia que aquilo era tudo
culpa sua. Se não tivesse incentivado sua filha a mentir sobre o bebê que
esperava antes do casamento as coisas teriam chegado a esse ponto? Tudo a
deixava mais angustiada e ela não queria mais sentir aquilo então, como sempre
fazia nos momentos de desespero, foi para cama e deitou-se na posição fetal
esperando sentir algum alívio daquela terrível sensação de desespero. Depois de
muito choro dormiu e teve os pesadelos de sempre. Enquanto isso Lia
se preparava para sua primeira apresentação. Suas pernas tremiam, a boca estava
seca. As outras garotas se preparavam calmamente fazendo brincadeiras entre
elas e Lia observava calada. Estava insegura diante daquelas mulheres, parecia
que todas eram mais espertas, muito mais bonitas e interessantes que ela. Como
faria para se destacar perante o tal cliente?
A
primeira garota voltou para o vestiário com cara de poucos amigos.
- Ah não,
é um daqueles! Com certeza vai com a novata, ele já conhece todas nós!
Lia
sentiu um frio no estômago. Estava com medo de ser escolhida, tinha medo de não
ser, tinha medo do que as garotas fariam. A segunda voltou e, fingindo estar
aliviada, se jogou no sofá.
- Ainda
bem que não vai ser eu, eu não quero mesmo atender esse cara. Vai ser a novata
com certeza.
De novo
Lia sentiu o corpo todo gelar e tremer. Uma a uma as garotas iam e voltavam até
que chegou a sua vez.
Ao entrar
na sala onde estava o cliente ela tentou não aparentar a tremedeira, mas o
homem percebeu seu nervosismo.
- Fique
tranquila, eu não mordo.
Lia
tentou disfarçar.
- Não,
não, estou bem, está tudo bem. Eu sou a Bruna, muito prazer.
Lia não
acreditava que tinha dito aquilo, foi o primeiro nome que lhe veio e ela disse
com certa naturalidade. Era estranho se apresentar com outro nome, se sentia
como uma criminosa, aquilo era uma mentira, pensava. Enquanto isso o homem a
analisava com cara de predador. Naquela situação ele se sentia dono e senhor de
tudo enquanto Lia sentia-se como uma peça na vitrine pronta para ser comprada.
Voltou para o vestiário e logo a recepcionista veio chamá-la.
- Garota
de sorte, ele te escolheu. Vamos.
Lia não sentia
o chão sob seus pés, a boca seca, o corpo todo tremendo e aquele frio no
estômago aumentando. Era agora ou nunca, chegava então o momento de se tornar
Bruna, não tinha mais volta.
Capítulo XI
O primeiro cliente
Lia
estava totalmente perdida, não sabia o que dizer, não sabia se devia dizer
alguma coisa então começou a tal massagem. Era estranho tocar aquele homem
desconhecido ali despido deitado tão relaxado. Ela massageou suas pernas
evitando tocar as coxas o máximo que pôde até que ele começou a rir.
- Você
nunca fez isso, não é?
- Bem
eu... Eu... Você quer que chame outra menina? Desculpa, eu não sabia que seria
assim.
- Calma
menina! Está tudo bem, eu quero você. Eu gostei de você, sabia?
- Bem,
eu...
- Vem cá.
Calmamente
o homem a abraçou e fizeram sexo de forma bem natural, muito diferente do que
Lia imaginava em um programa. Ela quase sentiu prazer, mas em certo momento
sentiu como se estivesse fora de seu corpo e observava tudo de cima, parecia
que estava no teto e não em cima dele. Quase surtou e saiu correndo, mas
recobrou a calma e conseguiu terminar. Ele tomou banho e se despediu deixando a
quantia que estava acostumado. Ela não conferiu o valor até ele ir embora e
quando viu o dinheiro se encheu de uma súbita alegria que quase a fez esquecer
do que acabara de acontecer ali mesmo. Correu então para o banheiro e se lavou
como se estivesse tirando aquilo de si. Esfregava com força enquanto percebia
que aquilo não podia ser tirado com água e sabão, estava para sempre nela,
agora ela era uma prostituta! Chorou sentada no chão até perceber que tinha que
voltar para o vestiário então saiu do banho e voltando ao quarto viu o dinheiro
e lembrou porque estava ali, porque estava fazendo aquilo e se encheu de força
ao perceber que tinha conseguido. Não falhou como achou que faria, conseguiu
ser forte e agora já tinha algum dinheiro. No fim das contas não tinha sido tão
difícil, era mais uma questão moral do que qualquer outra coisa. Agora era
oficial, Lia se tornara Bruna e Bruna era diferente de Lia, Bruna era valente,
destemida e não sentia toda aquela culpa. Agora Lia sentia que podia fazer tudo
que fosse preciso desde que se chamasse Bruna.
Continua...