quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rosa Chamuscada - Contos na Cidade Cão.

Rosa Chamuscada.



Capítulo I

A noiva infiel.



Lia tinha apenas 18 anos quando se casou, namorava Marcelo havia três anos e as famílias já estavam bem entrosadas, todos aprovavam a união do casal e a vida seguia dentro do planejado. O casal de classe média baixa deu uma festa reunindo os pais e parentes mais próximos para celebrar o noivado e marcaram a data do casamento para dali três meses, escolheram o mês de maio para se casar e dariam uma festa a altura de suas posses, mas com certeza haveria do bom e do melhor já que a família já guardava reservas para a ocasião que era mesmo iminente no ideal de todos.

Durante a festa de noivado na casa dos pais da noiva Lia se trancou no quarto e chorou. Logo sua mãe veio saber o que estava acontecendo e a noiva, não conseguindo mais esconder aquele segredo que a consumia há algum tempo, confessou em prantos.

- Estou grávida mãe!

- Grávida? Mas, filha... Tudo bem, vocês vão se casar logo e o Marcelo dará com certeza um ótimo pai. Eu não aprovaria você engravidar antes do casamento minha filha, mas já que é assim eu fico feliz em saber que serei avó.

- Mas, mãe... O Marcelo não é o pai!

- Como não é o pai? Minha filha você enlouqueceu?

- Não mãe, mas já estou quase louca mesmo. Eu não sei o que será de minha vida com o Marcelo se é que teremos uma vida juntos depois de contar isso para ele!

- Mas, quem é o pai? Me diga pelo amor de Deus!

- Ele está morto mãe! Aconteceu há poucos dias, vi no jornal que ele foi morto pela polícia.

A mãe da noiva era uma mulher simples e valorizava a honestidade, mas naquele momento sentiu o ímpeto de proteger a filha e teve uma ideia que achou ser capaz de salvar sua menina.

- Lia, olha filha, presta atenção, ninguém precisa saber de nada disso... Filha, pelo amor de Deus! Olha, você pode se casar com ele e ninguém nunca saberá de nada já que o pai da criança está morto mesmo. Nós podemos guardar esse segredo para sempre filha, eu jamais falarei uma palavra sobre isso nem mesmo com seu pai.

- Impossível mamãe, o Marcelo é negro e o pai do meu filho era branco como o leite! Estou perdida mamãe, o que vou fazer?

A moça chorava em desespero quando o noivo entrou no quarto todo feliz.

- Como estão minha futura esposa e sogrinha do coração?

Lia não conseguiu se recompor em tempo de esconder seu pranto que não teria como explicar. Ao ver a noiva chorando o rapaz quis entender o que estava acontecendo.

- O que é isso? Por que a minha loura está chorando assim?

A mãe entrou remediando a situação.

- É a emoção meu filho, não é todo dia que a gente fica noiva, não é? Ainda mais com um noivo como você, um menino de ouro! Minha filha está chorando de felicidade, de emoção.

- Não chore mais minha loura, vem aqui, seque essas lágrimas e vamos para a sala, meus pais chegaram e querem te cumprimentar meu amor!

Lia sentiu seu desespero aumentar pensando na família de Marcelo que a idolatrava e chorou mais ainda. O rapaz não entedia nada, mas não questionou o motivo dado pela mãe de Lia, pois queria continuar festejando e a presença dos pais o deixava ainda mais animado. Ele sentia um profundo orgulho da noiva que era loura e tinha olhos azuis, para ele aquilo era uma conquista e tanto para um rapaz negro, mas isso ele não admitia nem para si mesmo e se apegava às outras qualidades da moça quando falava dela ou a apresentava para amigos e parentes. Naquele momento ele sentiu que havia algo errado com sua noiva, mas estava ansioso para levar Lia até seus pais e continuar a festa então consolava sua amada falando de como seriam felizes juntos, de como seus pais estavam felizes com o casamento e tudo aquilo só a fazia chorar mais. A mãe pediu alguns instantes a sós com a filha e prometeu que desceriam logo e que Lia estaria linda e com um sorriso no rosto e assim aconteceu. Na sala pequena, mas bem mobiliada e arrumada especialmente para a ocasião, esperavam os pais do noivo com um brilho no olhar e ao avistá-la começaram a tecer inúmeros elogios a ela. Todos estavam muito alegres e desejavam felicidade ao casal quando o pai de Marcelo propôs um brinde em homenagem à noiva com um discurso inflamado sobre suas muitas qualidades e Lia, sem saber o que dizer, chorou copiosamente outra vez enquanto abraçava seu futuro sogro tentando fazê-lo parar de dizer aquelas coisas que ela julgava não merecer. Mas, ele continuava falando.

- Meu filho não poderia ter escolhido moça melhor para se casar, Lia é ideal para ser sua esposa meu filho! Tão íntegra, honesta...

E a mãe do noivo completava com animação.

- Sim, não podia ser melhor, é uma moça honesta, tão descente, hoje em dia é tão difícil encontrar uma assim. Meu filho tirou a sorte grande, mas ele merece porque é um menino muito bom mesmo. Serão muito felizes com certeza e logo teremos netinhos para a gente paparicar!

Lia queria sumir dali, cada palavra que diziam trazia seu drama de volta. Ela passou aquela noite com um turbilhão de emoções querendo explodir dentro de si, mas conteve-se ao máximo e ninguém percebeu nada de errado.

       Os três meses passaram rápido e Lia escondia sua gravidez sem grandes problemas, mas dentro de si havia tanto sofrimento e culpa que era impossível seguir como sempre foi. Cada dia que passava ela ficava mais magra, não conseguia comer, não sorria como antes e isso começou a ser questionado por todos à sua volta. Ninguém entendia porque a moça estava triste já que estava prestes a realizar o sonho de se casar com o homem que amava tanto. Tudo estava correndo dentro do planejado, qual era o problema afinal? Sua mãe era a única guardiã daquele segredo e somente com ela Lia podia desabafar. Mas, Cláudia era uma mulher prática e evitava falar sobre aquilo já que alguém podia escutar e dentro de si ela preferia fingir que nada daquilo estava acontecendo. Sempre que Lia falava qualquer coisa sobre aquilo ela logo mudava de assunto e repetia que era assim que deviam fazer, esquecer aquilo tudo e ter fé que nunca seria necessário contar a verdade.





Capítulo II

O casório.



       Chegou o mês de maio e a data do casamento. Casaram-se como manda o figurino. De véu e grinalda a jovem noiva não se sentia bem, parecia que todos sabiam que ela não tinha aquela pureza que sua imagem no espelho mostrava. Ao entrar na igreja com todos olhando para ela enquanto ouvia a Marcha Nupcial ela chorava pensando: Meu Deus, como sou hipócrita!

Tudo correu bem durante a cerimônia com exceção do interminável pranto da noiva, mas todo mundo achou normal ela estar tão emocionada e sua mãe lembrou várias vezes que aquilo era comum.

- É normal a noiva se emocionar, eu mesma já chorei muito hoje! No dia que me casei eu fiquei até pior do que ela está hoje!

Assim seguia a festa sem ninguém ao menos desconfiar dos reais motivos para o pranto da noiva. Por alguns momentos, entre fotos que ficariam para sempre e muitos cumprimentos acalorados de todos os convidados, Lia até conseguiu livrar-se daqueles pensamentos que a atormentavam constantemente nos últimos três meses e dançou, sorriu ao lado do seu verdadeiro amor, mas ainda sentia profundo arrependimento por ter traído sua confiança.

       Foram para o novo lar sem uma viajem lua de mel já que todo o dinheiro foi usado na festa. O apartamento era simples, um dormitório apenas, mas foi mobiliado com carinho pelo marido esforçado que fez questão de comprar o melhor que encontrou nas Casas Bahia dentro de suas posses. Tudo era perfeito, móveis novos, panos de cozinha impecavelmente alvos, a capa do liquidificador combinando com a do botijão de gás, um típico lar suburbano da capital paulista. Aquela nova rotina a fez distrair-se um pouco de sua angústia e ela foi quase feliz por alguns meses, mas chegava o momento em que ela inevitavelmente teria que contar que estava grávida e ela se preparou para isso contra sua vontade já que teria que mentir sobre a paternidade da criança. Ao saber que seria pai, Marcelo vibrou de alegria, dentro de si desejava que a criança fosse branca como a mãe, mas não admitiria isso jamais.

- Nossa minha loura, já? A gente não perde tempo mesmo.

- Aconteceu antes do casamento Marcelo.

- E você já sabia e nem me contou nada meu amor?

- Eu não queria que você se sentisse pressionado a se casar por causa da gravidez.

- Que é isso minha loura? Você sabe que eu te adoro mais que tudo nesse mundo, eu não deixaria de me casar contigo por nada meu amor!

Naquela noite se amaram como nunca, comemoraram e começaram a se preparar para o que viria de mudança com a chegada do bebê.

Capítulo III

O rebento do adultério.



       O tempo passou e Lia deu à luz um lindo menino, mas todos os seus pesadelos se tornaram realidade quando ela botou os olhos na criança pela primeira vez. Foi como ela tinha visto em seus sonhos que a atormentaram durante toda a gravidez, a enfermeira trazia com um sorriso aquele menino que em nada lembrava o suposto pai e até o último segundo Lia tentava manter a esperança de que ele fosse filho de Marcelo, mas no fundo sabia que não era. Chorava desesperada, não queria que seu marido visse a criança, mas isso não poderia ser evitado por muito tempo. Quando Marcelo viu o bebê sua emoção ofuscou a razão e ele não questionou o fato do menino ser tão diferente, era branco, tinha olhos claros como os da mãe, em nada lembrava Marcelo.

Os pais de Marcelo chegaram com flores para Lia e presentes para o bebê e encontraram Cláudia e Nestor, os pais de Lia, no berçário onde estava a criança. A tensão tomou conta de Cláudia que tinha rezado até o último instante para que o menino fosse mesmo filho de Marcelo. Olhando com carinho para o recém-nascido todos teciam elogios.

- É lindo demais, uma criança muito bonita mesmo! Parabéns meu filho! Dizia o pai com os olhos mareados. Mas, a mãe de Marcelo observou que o garoto não trazia nenhuma característica física do seu filho.

- É lindo mesmo, mas não lembra em nada o pai, puxou só a mãe. Mas, é assim mesmo, depois ele vai ficar mais moreninho como o pai, aposto!

- É assim mesmo, mas parece que esse menino puxou só a mãe, pelo menos por enquanto não tem nada do pai. Disse Nestor enquanto sentiu nas costas um beliscão dado por Cláudia.

- É nada, vai ser um lindo menino, já pensou moreninho com esse olho verde lindo? Tentava remediar a avó materna.

- É verde ou azul? Não dá para ver daqui. Quando a gente pode pegar no colo? Perguntou a avó paterna.

- Eu não sei mamãe, vamos para o quarto ver como está a Lia, acho que logo vão levar o bebê para amamentar e a gente vai poder ver de perto.

Cláudia tremia por dentro e Nestor percebeu a agitação da mulher, mas ela deu a desculpa de sempre, a emoção do momento.

Ao entrarem no quarto Lia sentiu gelar o sangue em suas veias. Com a voz saindo aos tropeços perguntou com ansiedade.

- Já conheceram seu netinho?

- Oh, sim, já! Respondeu a sogra.

Lia lançou um olhar para sua mãe com a pergunta embutida e essa fez um gesto com descrição acalmando a filha. Mas, um comentário do pai de Marcelo logo tirou sua calma outra vez.

- É um lindo menino, só um pouco branco demais, parece que não puxou nada do nosso lado viu!

Marcelo estava tão feliz por ser pai daquele garoto loiro que nem dava importância para isso, na verdade estava muito feliz por ser daquela maneira e completou com alegria:

- Ah pai, mas também olha a cor da mãe dele, minha loura é linda e eu sabia que me daria um filho tão bonito quanto ela. Agora eu tenho minha loura e meu louro!

Todos sorriam e faziam carinhos na nova mamãe e ela sentia-se a pior das mortais. Não acreditava que todos estavam ignorando o fato daquela criança não ter nada do pai em suas feições. Sua ansiedade aumentou quando a enfermeira trouxe o bebê novamente para o quarto, mas tudo correu normalmente já que a emoção dos avós em pegar o netinho no colo pela primeira vez não deixava espaço para questionamentos e jamais passaria em suas cabeças nenhuma dúvida sobre a índole de Lia.



Capítulo IV

Capricho do destino.



       O tempo passou e o menino crescia em meio aos cuidados e carinhos de todos especialmente de seu suposto pai que tinha muito orgulho do filho e sempre deixava isso evidente. Dentro de Lia a culpa diminuía e seu medo constante de ter seu segredo revelado agora pesava menos em seu coração. Ela levava sua vida de mãe e esposa dedicando o máximo de seu tempo aos cuidados da casa, do marido e do filho e isso a fazia esquecer por breves instantes aquela terrível culpa que sentia. Porém quando o menino estava com sete anos de idade ele foi atropelado enquanto seu pai o ensinava a andar de bicicleta e ficou seriamente ferido. Marcelo levou o filho ao hospital em desespero total. Aquele garoto era seu tesouro e ele não se perdoava por não ter conseguido evitar o acidente. Lucas precisava receber sangue em uma transfusão, mas não havia seu tipo sanguíneo disponível no hospital e Marcelo imediatamente foi ao hemocentro para doar sangue na esperança de salvar o filho, mas seu sangue não era compatível com o da criança. Ele achou estranho, mas estava muito preocupado para questionar isso e quando Lia e os avós do garoto chegaram foi possível salvar a vida de Lucas. Logo que o quadro clínico do menino se estabilizou aquela dúvida voltou à cabeça de Marcelo e ele foi perguntar ao médico porque não foi possível usar seu sangue no próprio filho. O médico deu algumas explicações alegando que é possível sim pai e filho terem tipos sanguíneos diferentes, pois não queria alimentar dúvidas que aparentemente haviam na cabeça de Marcelo.

- O importante é que o menino está fora de perigo e logo poderá ir para casa. Disse o médico encerrando o assunto.

       Mas, Marcelo sentia crescer dentro de si uma dúvida que ele não queria aceitar, preferiria não pensar mais naquilo, mas constantemente era invadido por uma tristeza quando pensava na possibilidade de Lucas não ser seu filho. Preferiu pensar que o garoto tinha sido trocado no hospital o que o deixava realmente desesperado, mas não admitiria jamais que Lia tivesse sido infiel. Alguns meses se passaram sem que ele pudesse tirar aquilo de seu pensamento e ele buscou informações sobre como tirar aquela dúvida. Descobriu que podia ter certeza fazendo um teste de DNA e depois de muito pensar em como diria isso a sua esposa ele finalmente conversou com ela e disse que queria fazer o tal teste. Lia sentiu de volta todo aquele medo e angústia. Desesperou-se com a possibilidade real de ter seu segredo revelado e agora era muito pior já que Lucas já era capaz de entender tudo isso e sofreria as consequências dos erros que ela cometera e que nunca foi capaz de perdoar.

- Como assim Marcelo? Você está louco? Você acha que o Lucas não é seu filho?

- Eu não sei mais de nada Lia! Primeiro o menino não tem nada a ver comigo, não lembra em nada ninguém da minha família, agora o tipo sanguíneo que não bate... E se ele tiver sido trocado no hospital? Isso acontece, não é?

- Se foi trocado o que a gente pode fazer Marcelo? Vamos rejeitar nosso filho agora? Procurar outro garoto e esquecer tudo que vivemos até agora com o nosso Lucas? É isso que você quer?

- Lia, eu estou muito confuso, eu não sei mais o que pensar, me desculpe minha loura, eu não tenho mais sossego desde aquele acidente, isso não sai da minha cabeça!

- Sabe Marcelo, eu fico muito ofendida com suas suspeitas...

- Não chora Lia, eu sinto muito meu amor, estou muito confuso, não sei o que pensar, me perdoa por favor!

Chorando se abraçaram e decidiram não falar mais sobre aquele assunto já que o menino poderia desconfiar de algo e isso seria pior ainda. Lia havia vencido uma batalha na luta para manter seu segredo, mas sentia que nunca estaria livre daquilo e que algum dia teria que revelar aquela verdade tão inconveniente.



Capítulo V.

Dúvidas de um marido traído.



O menino crescia e cada vez mais ficavam evidentes as diferenças entre ele e seu pai que sentia aquela angústia crescer dia-a-dia em seu coração. No fundo Marcelo não queria saber a verdade, mas sua curiosidade aumentava todo dia e ele não conseguia mais esconder seu sofrimento. Não tinha mais a alegria de antes e sem querer evitava estar com o filho, foi aos poucos se afastando da esposa e da criança e evitava ser visto com Lucas temendo os comentários das pessoas sobre a falta de semelhança entre eles. Estava prestes a aceitar a dura realidade, aquele garoto não era seu filho! Mas, não podia aceitar que Lia havia sido infiel e menos ainda que teria sido capaz de mentir sobre algo tão importante. Ele sempre deixou muito claro que a paternidade era um sonho em sua vida e que Lia era a mulher que sempre desejou para ser mãe do seu filho. Não, ela não podia ser tão cruel, não podia ter feito algo tão monstruoso, não a sua Lia, não. Ele tentava achar outras explicações que tirassem da sua loura qualquer responsabilidade sobre aquilo tudo, mas já estava prestes a aceitar que aquele garoto que fora motivo de tanta felicidade não era seu filho. Um dia descobriu que podia fazer o teste de DNA com uma amostra capilar do garoto e assim poderia tirar essa dúvida sem ter que trazer isso à tona novamente com Lia. Cortou uma pequena mecha do cabelo do filho enquanto ele dormia e levou ao laboratório, mas o valor do exame estava fora de suas possibilidades e ele sentiu-se incapaz, fraco, pequeno. Sua condição financeira saltou-lhe aos olhos como algo muito triste e irremediável. Agora sentia-se muito pior, era um marido traído, um pobre negro com um filho branco e nem ao menos podia tirar aquela dúvida. Voltou para casa abatido e em meio à tristeza esqueceu a mecha de cabelo no bolso.

       Dias depois Lia fazia suas tarefas do lar e ao revistar os bolsos de uma das calças do marido antes de pôr para lavar na máquina encontrou a mecha de cabelo de Lucas. Não entendeu o que aquilo significava e até pensou que o marido estava sendo infiel e chorou pensando que teria que aceitar uma traição do marido já que ela mesma havia feito o mesmo e ainda pior, tinha tido um filho do seu amante e criado como filho do marido. Sentiu as pernas tremerem e se encostou na parede enquanto chorava. Lucas aproximou-se querendo saber o que se passava com a mãe e a abraçou tentando confortá-la. Ao abraçar o menino, ainda com a mecha que encontrara no bolso do marido na mão, percebeu que era do menino aquele cabelo. Não restava dúvida, colocou a mecha próxima à cabeleira do filho e em fração de segundos entendeu o que estava acontecendo.

- Ai meu Deus, é muito pior do que eu pensei, ele fez o teste!

- Quem mamãe? Que teste?

Lia chorava desesperadamente e sem pensar falou o que não queria.

- Oh Deus, ele não esqueceu essa história, já deve saber da verdade, estou perdida!

- Mamãe, o que foi que aconteceu?

- Ah, meu filho, agora seremos só nós dois! Meu Deus, o que será de mim? Meu filho, perdoe sua mãe, se eu pudesse voltar eu faria tudo diferente!

- Como assim mãe, o que houve com o papai?

- Talvez ele não queira mais ficar conosco Lucas!

- Por que mãe? O que foi que eu fiz?

- Não filho, não é sua culpa, pelo amor de Deus! Nada disso, não!

- Então o que foi?

- Ah meu filho, é muito complicado para explicar agora, eu tenho que falar com seu pai.

- Mas, por que mãe?

- Meu filho querido, eu te amo tanto, nunca vou deixar de cuidar de você meu amor, nunca. Você tem sua mãe meu filho, nada vai te faltar, eu juro! Me abraça meu filho, eu nunca vou te deixar sozinho, eu prometo!

- Mãe, eu não vou ficar sozinho, tenho você e o papai, tenho minha avó Cláudia e o vovô Nestor e tenho meus avós no interior.

- Ai meu Deus!

Lia chorava cada vez mais ao pensar em como seus sogros reagiriam, como explicaria aquilo ao seu pai, como ele reagiria ao descobrir que Cláudia sempre soube de tudo e nunca contou nada para ele. Tentou se recompor ao perceber que Lucas estava cada vez mais assustado e curioso, não estava preparada para explicar nada daquilo para o menino e desconversou tentando convencer o menino que se tratava de um assunto entre ela e seu marido e nada era culpa do menino. Ele saiu para brincar na casa de um amiguinho e ela passou a tarde toda chorando enquanto esperava o marido chegar. No fundo desejava que nunca chegasse a hora, mas também queria resolver aquele assunto logo. O ideal seria não ter que dar nenhuma explicação, pensou em se matar, pensou em fugir para longe sem deixar pistas, mas como faria isso? Teria que levar Lucas consigo, não tinha dinheiro, não tinha estrutura nenhuma. Tudo que pensava a levava para um beco sem saída.





Capítulo VI.

A verdade sempre aparece.



Lia chorou por horas sem conseguir achar uma saída. Ao chegar em casa Marcelo não percebeu imediatamente o que se passava com sua esposa já que há muito não conseguia olhar diretamente para ela, mas Lia estava com os olhos muito inchados e era evidente que ela não estava bem. Depois de algum tempo ele notou que algo estava errado e quis saber o que aconteceu.

- O que houve Lia, você andou chorando?

- Não, imagina. Porque eu iria chorar?

Nesse momento Lucas entrou na sala...

- A mamãe estava chorando sim, chorou muito mesmo e é tudo culpa sua pai!

- Não meu filho, nada disso, a culpa não é do seu pai.

- Mas, mãe, você falou que ele ia embora, que ia deixar a gente, você disse isso mãe!

- Eu? Ir embora? Que história é essa Lia?

- É pai! Por que você vai embora? Você não gosta mais da gente por que?

- Que é isso meu filho? Eu não vou embora, jamais deixaria você e sua mãe, vocês são tudo para mim Lucas! Que história maluca é essa? Lia, me explica o que está acontecendo aqui!

- Viu mãe, o papai não vai deixar a gente não, fica calma mãe, para de chorar. Está vendo mãe, ele está dizendo que não vai abandonar a gente!

- Lia, pelo amor de Deus me explica o que está acontecendo aqui!

- Lucas meu filho, deixa eu conversar com seu pai. Eu te disse que não é nada com você meu amor, a mamãe e o papai tem que conversar tá bom? Depois a gente explica para você meu filho, não é culpa sua, por favor não pense isso tá?

O menino saiu contrariado e Marcelo ficava cada vez mais nervoso por não entender nada, mas tentava não levantar a voz já que via sua esposa em frangalhos. Respirou fundo e perguntou novamente.

- Lia, o que aconteceu?

- Querido, eu achei que você tinha esquecido essa história... Meu Deus, você não pode deixar isso pra lá Marcelo?

- Do que você está falando Lia?

Ela puxou a mecha de cabelo do bolso e ergueu no ar em frente ao rosto do marido.

- Essa maluquice de teste de DNA Marcelo! Porque você não deixa isso pra lá? O que você quer com tudo isso? Não entende o que isso pode causar ao nosso filho? Você não vê o que isso significa para mim? Eu não posso suportar sua dúvida, sua desconfiança!

- Ah meu Deus! Lia, por favor meu amor... Olha, isso foi loucura minha, mas fica calma, eu não fiz o teste, foi desespero meu, sei lá. Além do mais o teste custa muito caro e eu não poderia mesmo fazer.

- Então você teria feito se pudesse pagar, não é?

Marcelo sentou-se no chão, respirou fundo e respondeu:

- É, eu teria feito sim Lia, não consigo mais viver com uma dúvida que eu sei que eu mesmo criei para não ter que aceitar a realidade... O Lucas não é meu filho, eu posso sentir isso, mas não posso aceitar. Só esse exame poderia me dizer a verdade... Ou então você Lia!

- Marcelo, eu não posso mais aguentar isso!

Ele levantou-se e a segurou com força pelos braços. Ela que já chorava em desespero ficou ainda mais nervosa e assustou-se com a atitude do marido que nunca havia se quer levantado a voz para ela.

- Então fala mulher! Me conta a verdade!

Lia percebeu que dali para a frente não havia mais como esconder seu segredo, era chegado o momento de revelar a verdade. Encheu-se de coragem, libertou-se dos punhos do marido e tomou certa distância dele antes de começar a falar.

- Está bem Marcelo... Ele não é seu filho, essa é a droga da verdade! Eu não sabia o que fazer, o pai dele morreu antes do nosso casamento, o Lucas não teria um pai e eu ia te perder para sempre! Eu não sabia o que fazer, você sempre falou que queria ser pai... Ai meu Deus, o que será de mim? Marcelo, meu amor, por favor tenta entender, me perdoa por favor, me perdoa meu amor porque eu não consigo me perdoar... Nunca vou me perdoar meu amor, nunca! Eu ainda tinha esperança de ele ser seu filho, sei lá, tentei me convencer disso Marcelo... Por favor meu amor...

Marcelo não acreditava no que estava ouvindo, parecia que acordaria a qualquer momento e sairia daquele pesadelo. Sentiu as pernas tremendo e sentou-se no sofá, nada dizia, não conseguia olhar para Lia e ficou por alguns instantes olhando fixamente para o chão impecavelmente limpo da sala. Em sua cabeça tudo se encaixava, todos aqueles anos na dúvida, tudo que acontecera até ali fazia sentido agora e sua vida soava para ele como uma grande mentira. Sua esposa tão amada e venerada como uma santa, uma mulher acima de qualquer suspeita, a mulher dos seus sonhos... Era tudo mentira, ele viveu na ilusão até ali, não era pai de Lucas, Lia não era a mulher da sua vida, nada mais fazia sentido! Levantou a cabeça e procurou o olhar da esposa, mas ela estava ali no canto da sala encolhida no canto da parede, estava frágil, envergonhada, não conseguia olhar para ele. Marcelo não suportou vê-la daquele jeito e saiu sem dizer nada, mas bateu a porta com força descarregando um pouco da raiva que sentia.



Capítulo VII

Depois da tempestade.



Passaram-se dias, meses e Marcelo não retornou. Começou a mandar uma pequena quantia para manter a casa em um envelope sem remetente. Lia manteve segredo enquanto pode sobre a saída do marido de casa, mas como Marcelo não deu notícias aos pais e nem amigos e parentes próximos eles começaram a questionar e ela teve que contar que ele havia saído de casa. Todos queriam saber o por que afinal não fazia sentido, Marcelo não abandonaria a família assim sem nenhuma razão. Ela apenas dizia não saber de nada e deixava que as pessoas tirassem suas próprias conclusões. Logo conseguiu se isolar e assim não tinha mais que dar tantas explicações. Seguia sem conseguir explicar ao próprio filho o que tinha feito o pai ir embora e cada dia que passava aumentava a angústia com as perguntas do menino. Lucas ficou depressivo, não conseguia estudar, ficava tempo demais fora de casa e Lia preferia assim, mas estava preocupada com o que ele estaria fazendo, podia estar andando em más companhias, podia se envolver com drogas... Tudo isso a assustava, mas ter que responder suas perguntas era ainda pior! Cinco meses se passaram e ela vivia sem nenhuma razão, sucumbia em pensamentos terríveis, fugia do próprio filho para não ter que olhar em seus olhos e ver a tristeza que tomava conta do menino. Sabia que estava sendo egoísta, seu filho precisava dela e na idade dele, agora com quase dez anos, era bem possível que buscaria refúgio nas drogas. Marcelo não dava nenhum sinal além do dinheiro que chegava todo mês, mas agora até isso havia acabado. No quinto mês não receberam o envelope e no sexto também não, Lia desesperou-se. Não se sentia no direito de cobrar nada de Marcelo, como exigiria pensão alimentícia se Lucas não era filho dele? Como procurar o marido se não podia olhar em seus olhos? O que poderia fazer? Buscou ajuda dos pais, a mãe já tinha oferecido ajuda, queria que ela fosse morar com eles novamente, mas Lia tinha esperanças de que um dia Marcelo voltaria, confiava em seu amor e rezava para que o tempo fosse capaz de tirar aquela mágoa do peito do seu amado.

       Teve que aceitar que ele não voltaria e decidiu alugar o apartamento em que morava e mudar-se para a casa dos pais e o fez de maneira informal já que não era a única proprietária. Mas, mais uma vez o destino a castigou e quando conseguiu alugar o apartamento já morando com os pais há dois meses Nestor descobriu estar muito doente e precisando de tratamento que não podia pagar. Agora Lia tinha que ajudar o pai, pensou em vender o apartamento, mas teria que encontrar Marcelo para isso. Tudo fizeram para salvar Nestor, mas não foi possível, ele faleceu seis meses depois de descobrir o câncer no pâncreas e agora Cláudia e Lia estavam sozinhas com a missão de manter a casa e controlar Lucas que estava cada vez mais rebelde e distante. Elas estavam muito abaladas com a sua nova realidade, eram duas mulheres à moda antiga, sempre viveram para sua família e nenhuma das duas tinha estrutura emocional nem financeira para viver sem seus maridos. Lucas precisava cada vez mais de uma figura masculina e elas perderam o controle sobre o garoto. Tudo parecia perdido e elas sucumbiram deprimidas chorando as próprias mágoas e sentindo-se incapazes de continuar vivendo.

       Por algum tempo mantiveram-se com o aluguel do apartamento e a aposentadoria que Cláudia herdou do marido, mas logo ficou difícil e tiveram que cortar despesas o que deixava Lucas sempre mais revoltado.



Capítulo VIII

Perdendo o controle.



Dois anos se passaram e as duas viviam sem vontade, não tinham motivos para sair da cama e se contentavam com a condição financeira que tinham agora. Mas, o inquilino deixou o apartamento e na crise pela qual o país passava foi difícil encontrar novo morador para o apartamento. Novamente tiveram que cortar gastos e a situação ficava cada vez mais insustentável. Lucas, agora com quase 12 anos, resolveu que tinha que fazer alguma coisa já que era o homem da casa e começou a fazer pequenos furtos para trazer algum dinheiro para casa. A mãe não queria aceitar a verdade e aceitou a explicação do garoto que dizia ganhar dinheiro jogando videogame com os colegas. O menino já não frequentava a escola, mas a mãe absorta em sua depressão nem ficou sabendo disso e quando descobriu o que se passava com seu filho já era tarde demais.
Lucas foi detido pela polícia e levado para a FEBEM onde cumpriria medida corretiva por seis meses. Ficou evidente que Lia era incapaz de cuidar do próprio filho e ela sofria mais e mais por saber que ele só tinha ela, não tinha pai, os avós paternos não eram opção e sua mãe estava destruída emocionalmente. No dia em que viu seu filho entre os jovens marginais ela decidiu que estava na hora de reagir. Não teve coragem de repreender o filho pelo que ele fizera, sentia que era tudo culpa sua, sabia que tinha sido displicente e negara ajuda quando o menino mais precisava, além do mais tudo aquilo era culpa sua, o menino era uma vítima de sua mentira. Lia se sentia um monstro e Cláudia também não se perdoava por ter tido a ideia de esconder a verdade sobre a paternidade do menino e incentiva a filha a seguir com aquela mentira.



Capítulo IX
Uma decisão muito difícil.

Agora tudo parecia sem solução, Lia estava cada vez mais deprimida e a culpa que sentia aumentava a cada dia diante do que estava acontecendo com seu filho. Mas, havia algo ainda mais gritante, a falta de dinheiro. Com sua mãe não podia contar, Cláudia não conseguia superar a morte do marido e sucumbia cada vez mais na sua depressão. Passava dias na cama, mal se alimentava e não tinha nenhuma perspectiva de mudar aquela situação. Lia estava na mesma, não tinha trabalho, não pensava em nada que pudesse fazer para ganhar dinheiro, pois não tinha qualificação profissional e nem se sentia capaz de tentar estudar. De qualquer jeito tinha que fazer alguma coisa e começou a procurar emprego de qualquer coisa nos jornais. Estava disposta a fazer o que fosse preciso, mas nada se encaixava, não sabia como seguir daquele ponto.
 Foi quando viu um anúncio de uma casa de massagem em um bairro chique da cidade. São Paulo era uma cidade cheia de casas como aquela e ela não sabia muito bem o que eram aqueles lugares, mas imaginava que não teriam uma oportunidade de trabalho decente. Mesmo assim resolveu tentar já que era o único trabalho que não exigia nenhuma experiência anterior ou qualquer qualificação para ser admitida. No dia seguinte levantou disposta a ir até um daqueles endereços, mas ao pensar em como seria o trabalho sentiu-se enjoada e desencorajada. Como teria que tomar uma decisão urgente, já que não tinha mais como se manter, ela tomou coragem e começou a se arrumar para sair. Durante o banho sentia um frio no estômago, sentia enjoo, náusea, estava com muito medo do que poderia mudar em sua vida se levasse aquele plano adiante.
        Claudia percebeu a movimentação da filha e quis saber por que ela estava se preparando para sair.

- Filha, você vai sair? Já faz tempo que não te vejo se arrumar.

-Sim mamãe, eu vou procurar trabalho.

- Mas, vai fazer o que filha? Você só sabe cuidar de casa.

- Eu tenho que fazer alguma coisa mãe, assim não dá mais, estamos vivendo a pão e água. Pelo amor de Deus!

- Vai trabalhar de doméstica filha?

- Ai mamãe, nem isso eu posso fazer, todos querem referências dos patrões anteriores e eu não tenho nada!

- Então o que você vai fazer?

- Mamãe, eu nunca guardei segredo de você, você sabe. Mas, isso eu não gostaria de falar para você.

-  Como assim filha? Que história é essa Lia? Eu quero saber sim, estou velha, mas não estou morta. Pelo menos ainda.

- Ai mãe, eu queria ter como fazer isso de outro jeito, mas não achei nada além desse trabalho. Não precisa de experiência e eu posso tentar. Sei lá mãe, eu não sei mais o que fazer!

- Lia, você está me assustando. O que você vai fazer?

- Eu não sei ainda mãe, mas com certeza não é nada bom e você não vai aprovar.

- Fala logo Lia!

- É uma casa de massagem mamãe! No anúncio dizia que só precisa ter mais de 18 e menos de 30 anos e, é claro, boa aparência.

- Ai meu Deus! Minha filha, isso é casa de prostituição?

- Eu acho que sim mamãe. Estou com muito medo, mas eu tenho que arrumar algum dinheiro, assim não dá para continuar!

- Mas, Lia, você acha que tem coragem de fazer?

- Eu não sei mãe, mas vou ter que tentar.

- Eu tenho medo filha!

- Eu também mamãe, eu também!

Naquele momento mãe e filha estavam novamente unidas em uma situação desconcertante. Outra vez seriam cúmplices em uma empreitada totalmente absurda para elas que eram mulheres de família e jamais imaginaram viver tal situação. Olhando nos olhos da mãe Lia percebeu que tinha sua benção para tentar aquele emprego e as duas se abraçaram chorando em desespero. Estavam realmente desamparadas e sem perspectivas, mas aquela possibilidade de conseguir mudar essa realidade, apesar de todas as questões morais, era uma luz no fim daquele túnel que, até ali, parecia não ter saída.



Capitulo X
Indo à luta.
Saindo pela primeira vez em busca de emprego Lia se sentia bem, mas estava com medo e vergonha do que estava prestes a se tornar. Era ainda pior pensar que não seria aceita para o trabalho que achava indigno, mas se conseguisse, não teria volta, dali para frente seria uma prostituta! Esperando o ônibus para o metrô ela sentia como se todos soubessem o que estava indo fazer, parecia que todos ali a estavam julgando e condenando. Imaginava o que eles diriam, como seria a reação dos vizinhos que, em sua cabeça já a julgavam como uma mulher adúltera e uma mãe displicente. Já estava tonta e enjoada, prestes a desistir e voltar para casa quando o ônibus finalmente chegou. Ela hesitou, não queria entrar, mas não podia fraquejar. Pensou na mãe em casa precisando de sua ajuda, no filho recluso naquela instituição horrível e em como seria quando ele saísse. Enquanto as outras pessoas entravam ela desistiu, voltou atrás, desistiu novamente e quase foi embora quando ouviu o motorista.

- Vai ou não vai moça?

Entrou finalmente e pensava que ainda teria algumas chances de desistir daquilo. Ao chegar ao metrô novamente pensou que aquilo era uma loucura, que não conseguiria fazer, que não podia fazer, que não seria aceita. Tudo estava confuso em sua mente e ela sentiu uma angústia terrível outra vez. Já estava se acostumando com aquela sensação já que ultimamente era constante sentir o coração apertado diante dos fatos. Culpa, arrependimento, tristeza. Lia estava vivendo uma situação que sabia que tinha provocado, sentia como se fosse aquele o seu castigo por ter enganado seu marido, seu filho, sua família. E pensar que seu pai havia morrido sem jamais falar sobre isso com ela! No fundo ele sabia, mas nunca teve coragem de perguntar sobre o verdadeiro pai de Lucas. Pelo menos ele não veria sua filha se tornar uma puta, pensou Lia. Isso a fez tomar novamente a decisão então ela entrou na estação lotada e pegou o trem até o seu destino. Durante a viajem ainda pensava em desistir, mas sabia que não o faria, agora era hora de agir e ela sentia o corpo tremer toda vez que pensava que realmente faria aquilo.
        Chegando ao endereço parecia que não tinha mais volta, a não ser que não fosse admitida, ela faria aquilo, seria uma decisão sem volta. Entrou na casa tentando parecer disposta a tudo, mas seus trejeitos deixavam claro que se tratava de uma mulher frágil e assustada. Logo percebeu que o lugar não era nada do que ela havia imaginado, a casa era uma verdadeira mansão, muito bem decorada e iluminada, em nada lembrava um puteiro como ela havia pensado. Foi atendida por uma bela recepcionista que a tratou muito bem e lhe ofereceu algo para beber fazendo de tudo para que ela se sentisse à vontade. Lia foi ficando mais calma e percebeu que talvez aquilo não fosse tão terrível assim.         Foi entrevistada por um homem muito educado e solícito que apenas quis saber se ela teria disponibilidade de horário e se realmente queria o trabalho. O tratamento ali não tinha nada a ver com o que ela pensava ser um ambiente como aquele.

- E então Lia, você quer tentar? Seja sincera porque eu tenho que poder contar com você aqui já a partir de amanhã. Se fosse possível ficar hoje mesmo seria ainda melhor.

Lia estava decidida, agora era a hora!

- Sim, claro, eu posso ficar hoje sim, só preciso saber o que fazer, eu nunca fiz nada assim antes. Você entende, não é?

- Claro, claro, é normal. Eu vou chamar a Cristal, ela vai te explicar tudo e com certeza você vai se dar muito bem aqui. Fique tranquila e sinta-se à vontade. Seja bem vida Lia. É esse o nome que você vai usar?

- É o meu nome.

- Algumas meninas preferem usar outro nome, sabe como é.

- Eu não tinha pensado nisso.

- Fale com a Cristal, ela vai te ajudar nisso e no que mais você precisar.

- Está bem. Obrigada.

        Cristal era uma mulher alta, morena, corpo escultural, muito simpática e com um sorriso encantador. Já tinha mais de 30 anos com certeza, mas mantinha seu corpo impecável. Lia pensou que tinha sido boba achando que não seria aceita, que o lugar teria um ambiente deprimente e assustador. Não era nada do que havia pensado e ela começava a se sentir mais tranquila. Cristal lhe explicou com calma e delicadeza o que ela teria que fazer, do que precisaria comprar de roupas e acessórios e os horários que teria que cumprir.

- Mas, eu só vim com essa roupa mesmo. E agora?
Lia começou a sentir medo de novo e Cristal percebeu sua angústia.

- Não se preocupe querida, eu te empresto uma roupa para hoje, amanhã a tia Zilda vem aqui e você compra umas peças para você. Ela tem coisas lindas, muito elegantes e todo mundo aqui compra com ela.
Lia ficou desconcertada, não tinha nenhum dinheiro e vendo aquela elegância toda já imaginava que não poderia pagar. Cristal era escolada, já tinha visto outras garotas e ela mesma tinha passado por tudo aquilo no começo.

- Fica tranquila moça, a tia Zilda vende fiado para todas nós, ela é gente boa.

Lia não podia acreditar que aquilo era verdade, todo aquele acolhimento, um tratamento que ela jamais pensou que teria em um lugar como aquele. Aliás, o lugar em si já não era nada do que ela tinha imaginado.
Depois de explicar como seriam os ganhos na casa Cristal levou Lia até o vestiário e mostrou algumas peças que Lia podia escolher, eram roupas elegantes e todas brancas, a casa era rígida com relação a aparência e higiene das garotas e do local. Lia escolheu uma roupa e, meio sem jeito, vestiu. Cristal tentou deixa-la mais à vontade.

- Ficou linda, você tem um corpo ótimo, vai se dar bem aqui. Você pode usar até amanhã, mas lave antes de me devolver e tome cuidado porque é uma peça delicada. Agora eu vou te mostrar as salas.

- Salas?

- Sim, é onde você atende os clientes. Eles te conhecem na sala de apresentação ali depois da recepção e depois você leva para uma das salas de massagem. Enquanto espera cliente você pode ficar aqui ou lá fora na piscina, mas tem que estar sempre pronta para apresentação.
Tudo era mistério para Lia, ela não entendia metade do que Cristal falava, mas evitava fazer muitas perguntas para não parecer tão despreparada.

Após conhecer a casa toda Lia ficou mais tranquila, pois era realmente um lugar muito agradável e fino, um ambiente muito acolhedor. Parada diante do espelho via uma mulher diferente de si mesma. Sentiu-se confiante e pensou em como diria para sua mãe que tinha conseguido. Resolve ligar para casa para avisar que voltaria tarde.

- Oi mãe.

- E aí filha, como foi? Está tudo bem? Onde você está Lia?

- Eu consegui mãe, já estou trabalhando.

- O que? Como assim?

- É. Depois eu te explico tudo. Vou ficar até dez da noite, me espera para eu te contar tudo. Mas, fica tranquila, eu estou bem, é bem melhor do que eu pensei.

- Mas, filha, pelo amor de Deus! Onde você está? E se acontecer alguma coisa onde eu vou procurar? Ai meu Deus!

- Calma mãe. É naquele endereço no Itaim Bibi, está no jornal que deixei na mesa da cozinha. Mas, não se preocupe, aqui é um lugar muito bonito e elegante, alta classe mesmo, você tem que ver.

- Mas, e o trabalho, você conseguiu fazer filha? Como é que foi meu amor, você está bem?

- Calma mamãe, ainda não fiz nada aqui, tive só a instrução e me mostraram a casa.

- Instrução? Como assim filha?

- É mãe, é diferente do que a gente pensou. Quando chegar aí eu te explico. Mas, fica tranquila que estou bem. Se algo der errado eu te aviso. Eu te amo mãe. Torce por mim.

- Claro filha. Boa sorte! Eu não sei o que faria sem você. Você sabe que eu tenho orgulho de você, da sua coragem nesse momento. Eu estou imprestável aqui e você está tendo que fazer isso filha. Eu sinto muito meu amor, sinto mesmo! Mas, ainda bem que você é corajosa.

- O que é isso mãe? Não fala assim. Tenho que desligar, até mais tarde. Beijo.

-Um beijo minha filha. E olha Lia...

- O que foi mãe?

- Obrigada filha.

Claudia desligou o telefone e ficou ali parada pensando em tudo que a levou até aquele momento. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Sua única filha tendo que se sujeitar daquela forma. O que seu marido pensaria daquilo, como seria se ele estivesse vivo, mas principalmente sentia que aquilo era tudo culpa sua. Se não tivesse incentivado sua filha a mentir sobre o bebê que esperava antes do casamento as coisas teriam chegado a esse ponto? Tudo a deixava mais angustiada e ela não queria mais sentir aquilo então, como sempre fazia nos momentos de desespero, foi para cama e deitou-se na posição fetal esperando sentir algum alívio daquela terrível sensação de desespero. Depois de muito choro dormiu e teve os pesadelos de sempre.               Enquanto isso Lia se preparava para sua primeira apresentação. Suas pernas tremiam, a boca estava seca. As outras garotas se preparavam calmamente fazendo brincadeiras entre elas e Lia observava calada. Estava insegura diante daquelas mulheres, parecia que todas eram mais espertas, muito mais bonitas e interessantes que ela. Como faria para se destacar perante o tal cliente?
A primeira garota voltou para o vestiário com cara de poucos amigos.
- Ah não, é um daqueles! Com certeza vai com a novata, ele já conhece todas nós!
Lia sentiu um frio no estômago. Estava com medo de ser escolhida, tinha medo de não ser, tinha medo do que as garotas fariam. A segunda voltou e, fingindo estar aliviada, se jogou no sofá.

- Ainda bem que não vai ser eu, eu não quero mesmo atender esse cara. Vai ser a novata com certeza.
De novo Lia sentiu o corpo todo gelar e tremer. Uma a uma as garotas iam e voltavam até que chegou a sua vez.
Ao entrar na sala onde estava o cliente ela tentou não aparentar a tremedeira, mas o homem percebeu seu nervosismo.

- Fique tranquila, eu não mordo.

Lia tentou disfarçar.

- Não, não, estou bem, está tudo bem. Eu sou a Bruna, muito prazer.

Lia não acreditava que tinha dito aquilo, foi o primeiro nome que lhe veio e ela disse com certa naturalidade. Era estranho se apresentar com outro nome, se sentia como uma criminosa, aquilo era uma mentira, pensava. Enquanto isso o homem a analisava com cara de predador. Naquela situação ele se sentia dono e senhor de tudo enquanto Lia sentia-se como uma peça na vitrine pronta para ser comprada. Voltou para o vestiário e logo a recepcionista veio chamá-la.

- Garota de sorte, ele te escolheu. Vamos.

Lia não sentia o chão sob seus pés, a boca seca, o corpo todo tremendo e aquele frio no estômago aumentando. Era agora ou nunca, chegava então o momento de se tornar Bruna, não tinha mais volta.



Capítulo XI
O primeiro cliente
Lia estava totalmente perdida, não sabia o que dizer, não sabia se devia dizer alguma coisa então começou a tal massagem. Era estranho tocar aquele homem desconhecido ali despido deitado tão relaxado. Ela massageou suas pernas evitando tocar as coxas o máximo que pôde até que ele começou a rir.

- Você nunca fez isso, não é?

- Bem eu... Eu... Você quer que chame outra menina? Desculpa, eu não sabia que seria assim.

- Calma menina! Está tudo bem, eu quero você. Eu gostei de você, sabia?

- Bem, eu...

- Vem cá.

Calmamente o homem a abraçou e fizeram sexo de forma bem natural, muito diferente do que Lia imaginava em um programa. Ela quase sentiu prazer, mas em certo momento sentiu como se estivesse fora de seu corpo e observava tudo de cima, parecia que estava no teto e não em cima dele. Quase surtou e saiu correndo, mas recobrou a calma e conseguiu terminar. Ele tomou banho e se despediu deixando a quantia que estava acostumado. Ela não conferiu o valor até ele ir embora e quando viu o dinheiro se encheu de uma súbita alegria que quase a fez esquecer do que acabara de acontecer ali mesmo. Correu então para o banheiro e se lavou como se estivesse tirando aquilo de si. Esfregava com força enquanto percebia que aquilo não podia ser tirado com água e sabão, estava para sempre nela, agora ela era uma prostituta! Chorou sentada no chão até perceber que tinha que voltar para o vestiário então saiu do banho e voltando ao quarto viu o dinheiro e lembrou porque estava ali, porque estava fazendo aquilo e se encheu de força ao perceber que tinha conseguido. Não falhou como achou que faria, conseguiu ser forte e agora já tinha algum dinheiro. No fim das contas não tinha sido tão difícil, era mais uma questão moral do que qualquer outra coisa. Agora era oficial, Lia se tornara Bruna e Bruna era diferente de Lia, Bruna era valente, destemida e não sentia toda aquela culpa. Agora Lia sentia que podia fazer tudo que fosse preciso desde que se chamasse Bruna.

Continua...

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